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18/03/2013
LIBERTATIS CONSCIENTIA - Capítulo III
Teologia da Libertação
 
 
 


Evangelho, liberdade e libertação

43. A história humana, marcada pela experiência do pecado, levar-nos-ia ao desespero, se Deus tivesse abandonado sua criatura a ela mesma. Mas as promessas divinas de libertação e o seu vitorioso cumprimento na morte e ressurreição de Cristo são o fundamento da « alegre esperança » na qual a comunidade cristã busca a força para agir resoluta e eficazmente ao serviço do amor, da justiça e da paz. O Evangelho é uma mensagem de liberdade e uma força de libertação  que realiza a esperança de Israel, fundada sobre a palavra dos Profetas. Esta apoiava-se na ação de Javé que, antes mesmo de intervir como « goél », libertador, redentor, salvador do seu Povo, escolhera-o gratuitamente em Abraão.

I. A libertação no Antigo Testamento

O Êxodo e as intervenções libertadoras de Javé

44. No Antigo Testamento, a ação libertadora de Javé, que serve de modelo e referência a todas as outras, é o Êxodo do Egito, « casa de servidão ». Se Deus arranca seu Povo de uma dura escravidão econômica, política e cultural, é para fazer dele, através de Aliança do Sinai, « um reino de sacerdotes e uma nação santa » (Ex 19, 6). Deus quer ser adorado por homens livres. Todas as libertações ulteriores do Povo de Israel tendem a conduzi-lo a essa liberdade em plenitude que ele só pode encontrar na comunhão com o seu Deus.

O acontecimento principal e fundacional do Êxodo tem, portanto, um significado ao mesmo tempo religioso e político. Deus liberta o seu Povo, dá-lhe uma descendência, uma terra, uma lei, mas dentro de uma Aliança e para uma Aliança. Não se poderia, portanto, isolar o aspecto político, atribuindo-lhe um valor por si mesmo; é necessário considerá-lo à luz do desígnio de natureza religiosa no qual ele se integra.

A Lei de Deus

45. Em seu desígnio de salvação, Deus deu sua Lei a Israel. Juntamente com os preceitos morais universais do Decálogo, ela continha também normas cultuais e civis, que deviam regulamentar a vida do povo escolhido por Deus para ser sua testemunha entre as nações.

O amor de Deus acima de todas as coisas e do próximo como a si mesmo já constitui o centro desse conjunto de leis. Mas a justiça, que deve presidir as relações entre os homens, e o direito, que é a sua expressão jurídica, pertencem também à trama mais característica da Lei bíblica. Os Códigos e a pregação dos Profetas, como também os Salmos, referem-se constantemente a ambas, frequentemente unido-as. É em tal contexto que deve ser apreciado o cuidado da Lei bíblica pelos pobres, os desprovidos, a viúva e o órfão: a eles é devida a justiça, segundo o ordenamento jurídico do Povo de Deus. Já existem, portanto, o ideal e o esboço de uma sociedade centralizada no culto do Senhor e fundada na justiça e no direito animados pelo amor.

O ensinamento dos Profetas

45. Os Profetas não cessam de lembrar a Israel as exigências da Lei da Aliança. Eles denunciam no coração endurecido do homem a fonte das repetidas transgressões e anunciam uma Nova Aliança, na qual Deus transformará os corações, gravando neles a Lei do seu Espírito.

Anunciando e preparando essa nova era, eles denunciam com vigor a injustiça perpetrada contra os pobres; em favor destes, fazem-se porta-vozes de Deus. Javé é o supremo recurso dos pequeninos e dos oprimidos. Será missão do Messias defendê-los.

A situação do pobre é uma situação de injustiça contrária à Aliança. Por isso a Lei da Aliança protege-o com preceitos que refletem a própria atitude de Deus ao libertar Israel da servidão do Egito.41 A injustiça para com os pequeninos e os pobres é um grave pecado, que quebra a comunhão com Javé.

Os «pobres de Javé»

47. A partir de todas as formas de pobreza, de injustiça sofrida e de aflição, os « justos » e os « pobres de Javé », nos Salmos, fazem subir até Ele as suas súplicas. Eles sofrem em seus corações pela servidão â que foi reduzido, por causa de seus pecados, o povo «de dura cerviz ». Suportam a perseguição, o martírio e a morte, mas vivem na esperança da libertação. Acima de tudo, põem a sua confiança em Javé, a quem recomendam a própria causa.

Os « pobres de Javé » sabem que a comunhão com Ele  é o bem mais precioso, no qual o homem encontra a sua verdadeira liberdade. Para eles, o mal mais trágico é a perda dessa comunhão. É por isso que o seu combate contra a injustiça assume o sentido mais profundo e a sua eficácia na vontade de ser libertados da servidão do pecado.

No limiar do Novo Testamento

48. No limiar do Novo Testamento, os « pobres de Javé» constituem as primícias de um « povo humilde e pobre », que vive na esperança da libertação de Israel.

Personificando essa esperança, Maria ultrapassa o limiar do Antigo Testamento. Ela anuncia com alegria o acontecimento messiânico e louva o Senhor que se prepara para libertar o seu Povo.Em seu hino de louvor à divina misericórdia, a humilde Virgem, para quem o povo dos pobres volta-se espontaneamente e com tanta confiança, canta o mistério da salvação e a sua força de transformação. O senso da fé, tão vivo nos pequeninos, sabe reconhecer imediatamente toda a riqueza do Magnificat, ao mesmo tempo soteriológica e ética.

II. Significação cristológica do Antigo Testamento

A luz de Cristo

49. O Êxodo, a Aliança, a Lei, a voz dos Profetas e a espiritualidade dos « pobres de Javé » não atingem a sua plena significação a não ser em Cristo.

A Igreja lê o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado por nós. A Igreja vê a sua própria prefiguração no Povo de Deus da Antiga Aliança, encarnado no corpo concreto de uma nação particular, política e culturalmente constituída, que se inseria na trama da história como testemunha de Javé diante das nações, até c término do tempo da preparação e das figuras. Na plenitude dos tempos, vinda com Cristo, os filhos de Abraão foram então chamados com todas as nações a entrar na Igreja de Cristo, para formar com elas um só Povo de Deus, espiritual e universal.

III. A libertação cristã

A Boa-Nova anunciada aos pobres

50. Jesus anuncia a Boa-Nova do Reino de Deus e chama os homens à coversão.«Os pobres são evangelizados » (Mt 11, 5): retomando a palavra do Profeta, Jesus manifesta a sua ação messiânica em favor daqueles que esperam a salvação de Deus.

Mais ainda, o Filho de Deus que se fez pobre por nosso amor, quer ser reconhecido nos pobres, naqueles que sofrem ou são perseguidos: « o que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes » (Mt 25, 40).

O Mistério Pascal

51. Mas é, antes de tudo, pela força do seu Mistério Pascal que Cristo nos libertou.55 Por sua obediência perfeita na Cruz e pela glória da sua ressurreição, o Cordeiro de Deus tirou o pecado do mundo e abriu-nos o caminho da libertação definitiva.

Por nosso serviço e nosso amor, mas também pelo oferecimento de nossas provações e sofrimentos, nós participamos do único sacrifício redentor de Cristo, completando em nós « o que falta das tribulações de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja » (Cl 1, 24), na expectativa da ressurreição dos mortos.

Graça, reconciliação e libertade

52. A medula da experiência cristã da liberdade encontra-se na justificação pela graça da fé e dos sacramentos da Igreja. Essa graça liberta-nos do pecado e nos introduz na comunhão com Deus. Pela morte e ressurreição de Cristo, o perdão nos é oferecido. A experiência da nossa reconciliação com o Pai é fruto do Espírito Santo. Deus revela-se a nós como o Pai de misericórdia, diante de quem podemos apresentar-nos com uma confiança total.

Reconciliados com Ele e recebendo aquela paz de Cristo que o mundo não pode dar, somos chamados a ser, entre os homens, construtores de paz.

Em Cristo, podemos vencer o pecado e a morte não nos separa mais de Deus; ela será finalmente destruída por ocasião da nossa ressurreição semelhante à de Jesus. O próprio « cosmos », cujo centro e vértice é o homem, espera ser « liberto da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus » (Rm 8, 21). Desde já, Satã é derrotado; ele, que detém o poder da morte, foi reduzido à impotência pela morte de Cristo. Recebemos alguns sinais que antecipam a glória futura.

Luta contra a escravidão do pecado

53. A liberdade, trazida por Cristo no Espírito Santo restituiu-nos a capacidade, de que o pecado nos privara, de amar a Deus acima de todas as coisas e de com Ele permanecer em comunhão.

Somos libertados do amor desordenado de nós mesmos, que é a fonte do desprezo do próximo e das relações de domínio entre os homens.

No entanto, até o retorno glorioso do Ressuscitado, o mistério de iniquidade está sempre em ação no mundo. São Paulo advertiu-nos: « É para a liberdade que Cristo nos libertou » (Gl 5, 1). É preciso, pois, perseverar e lutar para não recair sob o jugo da escravidão. Nossa existência é um combate espiritual pela vida segundo o Evangelho e com as armas de Deus. Mas recebemos a força e a certeza da nossa vitória sobre o mal, vitória do amor de Cristo ao qual nada pode resistir.

O Espírito e a Lei

54. São Paulo proclama o dom da Lei Nova do Espírito, em oposição à lei da carne ou da cobiça que inclina o homem ao mal e torna-o incapaz de escolher o bem. Essa falta de harmonia e essa fraqueza interior não abolem a liberdade e a responsabilidade do homem, mas comprometem o seu exercício em vista do bem. É isso que faz o Apóstolo exclamar: « Não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero » (Rm 7, 19). Com razão, ele fala da « servidão do pecado » e da « escravidão da lei », pois ao homem pecador, a lei, que ele não pode interiorizar, aparece como opressora.

No entanto, São Paulo reconhece que a Lei conserva seu valor para o homem e para o cristão, porque « ela é santa, e santo, justo e bom é o preceito » (Rm 7, 12).64 Ele reafirma o Decálogo, pondo-o em relação com a caridade, que é a sua verdadeira plenitude.65 Além disso, ele sabe muito bem que uma ordem jurídica é necessária para o desenvolvimento da vida social. Mas a novidade que ele proclama, é que Deus nos deu seu Filho « a fim de que o preceito da Lei se cumpra em nós » (Rm 8, 4).

O próprio Senhor Jesus enunciou os preceitos da Nova Lei, no Sermão da Montanha; pelo seu sacrifício oferecido sobre a Cruz e por sua ressurreição gloriosa, ele venceu as forças do pecado e obteve-nos a graça do Espírito Santo, que torna possível a perfeita observância da lei de Deus e o acesso ao perdão se recairmos no pecado. O Espírito que habita em nossos corações é a fonte da verdadeira liberdade.

Pelo sacrifício de Cristo, as prescrições cultuais do Antigo Testamento tornaram-se obsoletas. Quanto às normas jurídicas da vida social e política de Israel, a Igreja apostólica, enquanto Reino de Deus inaugurado na terra, teve a consciência de não ser mais ligada a elas. Isso fez compreender à comunidade cristã que as leis e os atos das autoridades dos diversos povos, embora legítimos e dignos de obediência, não poderiam nunca, enquanto promanam dessas mesmas autoridades, ter a pretensão de assumir um caráter sagrado. À luz do Evangelho, muitas leis e estruturas parecem, antes, trazer consigo a marca do pecado, prolongando a sua influência opressiva na sociedade.

IV. O Mandamento novo

O Amor, dom do Espírito

55. O Amor de Deus, derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, implica o amor do próximo. Relembrando o primeiro mandamento, Jesus acrescenta imediatamente: « O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas » (Mt 22, 39-40). E São Paulo diz que a caridade é o pleno cumprimento da Lei.

O amor do próximo não conhece limites, estende-se aos inimigos e aos perseguidores. Imagem da perfeição do Pai, a perfeição à qual deve tender o discípulo reside na misericórdia. A parábola do Bom Samaritano demonstra que o amor cheio de compaixão, que se põe a serviço do próximo, destrói os preconceitos que sublevam os grupos étnicos ou sociais uns contra os outros. Todos os textos do Novo Testamento apresentam, com uma riqueza inesgotável, todos os sentimentos de que é portador o amor cristão pelo próximo.72

O amor do próximo

56. O amor cristão, gratuito e universal, recebe a sua natureza do amor de Cristo que deu a sua vida por nós: « Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros » (Jo 13, 34-35).73 Tal é o « mandamento novo » para os discípulos.

À luz desse mandamento, São Tiago lembra severamente aos ricos o seu dever e São João afirma que quem possui riquezas deste mundo e fecha o seu coração a seu irmão que passa necessidade, não pode ter o amor de Deus vivendo nele.75 O amor do irmão é a pedra de toque do amor de Deus: « Quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar » (1 Jo 4, 20). São Paulo sublinha, com energia, o laço existente entre a participação no sacramento do Corpo e Sangue de Cristo e a partilha com o irmão que se encontra em necessidade.

Justiça e caridade

57. O amor evangélico e a vocação de filho de Deus, à qual todos os homens são chamados, têm como consequência a exigência, direta e imperativa, do respeito de cada ser humano em seus direitos à vida e à dignidade. Não existe distância entre o amor do próximo e a vontade de justiça. Opor amor e justiça seria desnaturar a ambos. Mais ainda, o sentido da misericórdia completa o da justiça, impedindo a esta última de se fechar no círculo da vingança.

As desigualdades iníquas e todas as formas de opressão, que hoje atingem milhões de homens e de mulheres, estão em aberta contradição com o Evangelho de Cristo e não podem deixar tranquila a consciência de nenhum cristão.

A Igreja, na sua docilidade ao Espírito, avança fielmente pelos caminhos da libertação autêntica. Seus membros têm consciência de suas falhas e de seus recuos nessa busca. Mas uma multidão de cristãos, desde o tempo dos Apóstolos, tem comprometido suas forças e sua vida pela libertação de todas as formas de opressão e pela promoção da dignidade humana. A experiência dos santos e o exemplo das inúmeras obras ao serviço do próximo constituem um estímulo e uma luz, em vista das iniciativas libertadoras que hoje se impõem.

V. A Igreja, Povo de Deus na Nova Aliança

Rumo à plenitude da liberdade

58. O Povo de Deus na Nova Aliança é a Igreja de Cristo. Sua lei è o mandamento do amor. No coração dos seus membros, o Espírito habita como em um templo. Ela é aqui na terra, germe e começo do Reino de Deus, que receberá a sua realização definitiva no final dos tempos, com a ressurreição dos mortos e a renovação de toda a criação.

Possuindo, dessa forma, o penhor do Espírito, o Povo de Deus é conduzido à plenitude da liberdade. A nova Jerusalém que, com fervor, nós esperamos, é chamada, com razão, cidade da liberdade, em seu sentido mais alto. Então, « Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram » (Ap 31, 4). A esperança é a expectativa certa dos « novos céus e nova terra, onde habitará a justiça » (2 Pd 3, 13).

O encontro final com Cristo

59. A transfiguração da Igreja, chegada ao termo da sua peregrinação, é realizada pelo Cristo ressuscitado e não anula, de forma alguma, o destino pessoal de cada um, ao final da própria vida. Cada homem, se julgado digno diante do tribunal de Cristo por ter usado bem o seu livre arbítrio na graça de Deus, alcançará a bem-aventurança. Tornar-se-á semelhante a Deus, pois vê-lo-á tal como Ele é. O dom divino da bem-aventurança eterna é a exaltação da mais alta liberdade que possa conceber.

Esperança escatológica e empenho pela libertação temporal

60. Esta esperança não enfraquece o esforço pelo progresso da cidade terrestre, más, pelo contrario, dá-lhe sentido e força. Convém, certamente, distinguir cuidadosamente progresso terrestre e crescimento do Reino, que não são da mesma ordem. Entretanto, tal distinção não é uma separação; pois a vocação do homem à vida eterna não suprime e sim confirma a sua missão de pôr em obra as energias e os meios que recebeu do Criador para desenvolver a sua vida temporal.

Iluminada pelo Espírito do Senhor, a Igreja de Cristo pode discernir, nos sinais dos tempos, os que trazem consigo promessas de libertação e outros, que são enganadores e ilusórios. Ela convoca os homens e as sociedades a vencer as situações de pecado e de injustiça, e a estabelecer as condições de uma verdadeira liberdade. Ela tem consciência de todos estes bens – dignidade humana, união fraterna, liberdade – que constituem o fruto de esforços coerentes com a vontade de Deus. Encontrá-los-emos « lavados de toda mancha, iluminados e transfigurados, quando Cristo apresentará ao Pai o reino eterno e universal », que é um reino de liberdade.

A espera vigilante e ativa da vinda do Reino é também a de uma justiça enfim perfeita, para os vivos e para os mortos, para os homens de todos os tempos e de todos os lugares, que Jesus Cristo, como Juiz supremo, instaurará. Uma tal promessa, que ultrapassa todas as possibilidades humanas, diz respeito diretamente à nossa vida neste mundo. Pois uma verdadeira justiça deve estender-se a todos, respondendo à imensa soma de sofrimentos suportados por todas as gerações. Na realidade, sem a ressurreição dos mortos e o julgamento do Senhor, não há justiça, no sentido pleno desse termo, A promessa de ressurreição vem gratuitamente ao encontro do anseio de verdadeira justiça, que reside no coração humano.

 

 
 
Artigo Visto: 1795 - Impresso: 51 - Enviado: 9
 

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