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24/12/2011
As vinte e quatro Horas da Paixão
 
 
 

«... O deleite que Jesus abençoado haure da meditação destas Horas é tão grande que desejaria que destas meditações houvesse pelo menos um exemplar para cada cidade ou aldeia e elas fossem praticadas; então, nessas reparações Jesus sentiria reproduzir-se a sua própria voz e as suas orações, que Ele dirigia ao seu Pai nas 24 Horas da sua dolorosa Paixão; e se isto fosse feito em cada aldeia ou cidade por algumas almas, Jesus parece fazer-me entender que a Justiça divina ficaria parcialmente aplacada e em parte terminariam e seriam interrompidos os seus flagelos nestes tristes tempos de desgraça e de derramamento de sangue. Reverendo Padre, dirija este apelo a todos: cumpra assim a pequena obra que o meu amável Jesus me fez realizar....».

(de uma carta de Luísa ao seu Confessor extraordinário, o Beato Aníbal Maria Di Francia)

Luísa Piccarreta


«A Pequena Filha da Vontade Divina»
Nihil obstat Trani, 4 de março de 1997

+ D. Carmelo Cassati
Arcebispo


J.M.J.A.


Messina, 29 de outubro de 1926.
Intelligentes quae sit voluntas Dei



Prefácio


Esta leitura é indispensável para compreender a suprema importância desta obra que, daquilo que se verá, poderia chamar-se Livro do Céu.

Com esta primeira impressão, empreende-se a publicação de mais de 20 volumes manuscritos de revelações sublimes, que piedosamente se julgam – exceto sempre o juízo da Santa Igreja – terem sido feitas por Nosso Senhor Jesus Cristo a uma alma, sua caríssima filha e discípula que é a piedosa Autora do livro O Relógio da Paixão.

Desde agora comunica-se que estas revelações, que seguem e seguirão – não sabemos quanto – têm em vista estabelecer-se na Terra: o Triunfo completo do Reino da Vontade Divina.

Quem é esta filha e discípula predileta de Nosso Senhor, que foi autora de O Relógio da Paixão, e agora escreveu 20 volumes de Revelações divinas?

Não podemos revelar as conotações, o nome, o sobrenome, o endereço, etc., porque seria como prostrá-la à mais atroz das aflições, ao mais sensível esmorecimento de alma e de corpo.

Ela quer viver solitária, escondida e desconhecida.

Por nenhuma pacto ao mundo teria escrito as íntimas e prolongadas comunicações com o adorável Jesus, desde a mais tenra idade até hoje, e que ainda continuam quem sabe até quando, se Nosso Senhor mesmo não a tivesse reiteradamente obrigado, tanto por Si mesmo como por meio da santa obediência aos seus Diretores, à qual se rende sempre com imensa violência e ao mesmo tempo com grande fortaleza e generosidade, porque o conceito que ela tem da santa obediência lhe faria rejeitar até mesmo o ingresso no Paraíso, como efetivamente aconteceu e se revelará nas revelações de 11 e 30 de outubro de 1909.

Igualmente graciosas são as apóstrofes e os diálogos que mantêm com a Senhora Obediência, como ela lhe chama, como se quisesse refazer-se da sujeição a que é obrigada. Ora fala-lhe como a uma grande Princesa e Rainha, que se impõe com severidade, ora prefigura-a como uma Guerreira poderosíssima, que se arma até aos dentes e golpeia assim que alguém a quer contradizer.

Em síntese, esta alma está em luta tremenda entre um prepotente amor ao escondimento e o inexorável império da Obediência a que deve absolutamente ceder.

E a Obediência vence-a sempre.

E este constitui um dos mais importantes caracteres de um espírito genuíno, de uma virtude sólida e provada, porque há cerca de quarenta anos que, com a mais vigorosa violência contra si mesma, se submete à grande Senhora que a domina!

Esta alma solitária é uma virgem puríssima, totalmente de Deus, que se manifesta como objeto de singular predileção do Redentor Divino, Jesus.

Parece que Nosso Senhor, que de século a século aumenta cada vez mais as maravilhas do seu Amor, quis fazer desta virgem, que Ele chama a mais pequena que encontrou na terra, destituída de toda a instrução, um instrumento adequado para uma Missão tão sublime, a que nenhuma outra se poderá comparar, ou seja, o triunfo da Vontade Divina sobre o Universo Orbe, em conformidade com quanto se diz no Pater Noster: Fiat Voluntas tua, sicut in Coelo et in terra.

Há mais de 40 anos que esta virgem do Senhor, desde quando era ainda adolescente, foi colocada na cama como vítima do Amor Divino. Trata-se do leito de uma longa série de dores naturais e sobrenaturais, e de inebriações da Caridade eterna do Coração de Jesus. A origem das dores, que ultrapassam toda a ordem da natureza, foi quase sempre uma alternada privação de Deus, que constitui a noite obscura do espírito, a que o místico Doutor São João da Cruz chamava: amarga e terrível, a comparar-se com as penas que padecem as almas do Purgatório pela privação de Deus. Ele compara-a, de certa forma, a uma sufocação da alma, como a quem falta a respiração, uma vez que a respiração da alma é Deus, como justamente diz o Profeta Jeremias: Christus spiritus oris nostri. Jesus Cristo é o respiro da nossa boca.

Na continuação destas publicações, ler-se-ão as lamentações desta pomba ferida que procura o seu Dileto, tão íntimas, agudas e sensíveis a ponto de se sentirem arrebatados por uma profunda impressão diante desta Vítima do Amor Divino. Mas às vezes rasga-se o denso véu, a alma vê Jesus, abraçam-se, felicitam-se e a alma pede o místico beijo da Sagrada Esposa dos Cânticos. Às vezes a inebriação é tão grande que, no delírio do Amor, a resistência humana se debilita e a alma exclama: basta, basta, chega Senhor, porque não julgo poder agüentar mais, com em casos semelhantes costumava exclamar São Francisco Xavier.

Todas estas manifestações do Amor Divino se verificam sobretudo no silêncio da noite, e no dia seguinte ela recebe a Sagrada Comunhão, depois do que se fecha e se concentra por cerca de duas horas.

Aos sofrimentos da alma acrescentam-se também os do corpo, cuja maior parte a nível místico.

Sem que qualquer sinal apareça nas mãos, nos pés e no lado ou na testa, esta recebe de Nosso Senhor mesmo uma freqüente crucifixão. O próprio Jesus a estende sobre a cruz e lhe crava os pregos. Então, verifica-se nela aquilo que Santa Teresa dizia, quando recebia a ferida do Seráfico, isto é: uma dor extremamente sensível, a ponto de a fazer esmorecer e, ao mesmo tempo, uma inebriação de amor.

Mas se Jesus não fizesse assim, seria para esta alma um sofrimento imensamente maior porque, como a Serafina do Carmelo, também ela diz: ó padecer, ó morrer!

Eis outro sinal do verdadeiro espírito.

Nosso Senhor coroado de espinhos apareceu-lhe muitas vezes, abstraindo-a primeiro dos sentidos e ela, com delicadeza, tirava-Lhe a coroa espinhosa e colocava-a sobre a própria cabeça, experimentando frêmitos atrozes, mas também júbilos místicos.

Na continuação destas publicações ficar-se-á assombrado ao tomar conhecimento da extraordinária familiaridade de Nosso Senhor com esta alma, a ponto de nada invejar de Santa Gertrudes nem de Santa Matilde, nem sequer das Santas Margaridas e de qualquer outra. Como observa em casos semelhantes o Doutor místico supramencionado, a familiaridade e interioridade com que Nosso Senhor trata esta alma a torna temerária a ponto de usar certas expressões e determinadas pretensões que pareceriam exageradas, se não se considerasse que, no campo da Fé, o adorável Jesus nos deu muitas provas do seu amor, ainda maiores de quantas se podem receber nos colóquios familiares entre Jesus e qualquer alma privilegiada.

Em todo o caso, bastaria o fato de nos ter dado a Si mesmo até mesmo em forma de alimento, na Santíssima Eucaristia.

Depois do que expusemos da longa e contínua habitação de anos e anos no fundo de uma cama, como vítima com participação de muitos sofrimentos espirituais e físicos, poderia parecer que a vista desta virgem desconhecida deve ser algo de angustioso, como ver uma pessoa deitada, com todos os sinais de dores padecidas e de reais sofrimentos e semelhantes.

E contudo, estamos diante de algo de admirável. Esta Esposa de Jesus crucificado, que passa a noite em êxtases dolorosas e nas dores de todos os tipos, quando é vista depois de dia, meio sentada na cama, trabalhando com as agulhas e os alfinetes, nada, minimamente nada transparece da noite em que tanto sofreu, nada, nada de extraordinário ou sobrenatural. Pelo contrário, ela vê-se em todo o aspecto de uma pessoa sadia, alegre e jovial. Fala, conversa e, se for necessário, ri, mas recebe poucas amigas.

Às vezes algum coração atribulado confia-se a ela e pede-lhe orações. Ela escuta benignamente e conforta, mas nunca diz uma palavra que se refira às revelações. O grande conforto que ela apresenta é sempre um, sempre o mesmo argumento: a Vontade Divina.

Embora não possua qualquer ciência humana, é contudo dotada em abundância de uma Sabedoria totalmente celestial, da Ciência dos Santos. O seu falar ilumina e consola.

A sua natureza não é escassa de engenho.

Quando era criança, estudou até à primeira classe; o seu escrever é cheio de erros, embora não lhe faltem termos apropriados, em conformidade com as Revelações, que lhe parece serem infundidas por Nosso Senhor.


O Relógio da Paixão

Contemporaneamente às sublimes Revelações sobre as Virtudes em geral e sobre a Vontade Divina em especial, esta alma desde há muitos anos, à noite, entrava na contemplação dos Sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, acrescentando-lhes as notícias distintas de muitas cenas da Paixão.

O sistema consistia em percorrer as 24 Horas da Adorável Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que começam com a Ceia Legal e terminam com a Morte de Cruz.

Às vezes estas visões eram intercaladas com especiais Revelações de Nosso Senhor.

Dado que nada se tinha publicado das Visões e Revelações desta alma, assim ela extremamente desejosa de querer esconder tudo e temendo que uma publicação mesmo anônima a pudesse descobrir, pretendia enterrar em si mesma este Tesouro de ciências divinas, de compaixão sobre-humana, de sobrenatural fonte dos afetos mais amorosos.

Mas o seu Padre espiritual colocou-a diante da majestosa Senhora Obediência, da fortíssima Guerreira armada até aos dentes; e Nosso Senhor mesmo a estimulava à publicação para o bem de muitas almas.

Ela rendeu-se e ao autor deste Prefácio foi confiada a impressão dos escritos que ela escreveu sobre um tema tão importante.

Logo que foi publicada a primeira edição deste admirável Tratado sobre as 24 Horas da Paixão de Nosso Senhor, a Bênção de Deus manifestou-se com evidência. Em pouco tempo esgotaram-se os exemplares, que então eram 5.000, sem que se enviassem a endereços específicos; bastava mandar uma cópia do mesmo a alguma pessoa devota, para que começassem a chegar pedidos. Fez-se um anúncio no Periódico dos nossos Orfanatos Antonianos «Dio e il Prossimo» («Deus e o Próximo»), sob o nome de um Livro de ouro, e imediatamente os pedidos aumentaram, de maneira que a edição depressa se esgotou.

O Eminentíssimo Senhor Cardeal Cassetta, de feliz memória, a quem nunca se tinha enviado a publicação diretamente, pediu-nos de uma só vez 50 exemplares.

Passou-se à segunda edição, mais numerosa, e depois à terceira. Uma e outra depressa se esgotaram.

Por motivos de propaganda, a venda era feita a preços moderados, a ponto de a obra ser publicada somente com a sua despesa.

Naquela época aconteceu-nos um episódio agradável, que recordamos com prazer.

Chegou diretamente a mim uma carta do Vaticano, que nos foi escrita por aquele angélico Bispo, hoje Núncio Apostólica na Venezuela e então Secretário de D. Tacci (que hoje é um benemérito Cardeal), que era o Mons. Cento, sucessivamente consagrado Bispo de Acireale, e que talvez será Cardeal da Santa Igreja ou, quem sabe também, daqui a muitos anos que fazemos votos por que transcorram sobre a venerada cabeça de Pio XI, poderia ser o Pastor Anjoscus das Profecias em que alguns crêem e outros não, do Bispo da Irlanda, Malaquias.

Nunca tinha entrado em contato antes com esta amável Personagem.

Nessa missiva, ele mostrou-se entusiasta da leitura de O Relógio da Paixão, cujo autora era anônima, e pediu que lhe revelasse o nome e o endereço da mesma, pois desejava estabelecer relações espirituais com ela.

Na verdade, não soube dizer não.

Porém, ele não se contentou com relações epistolares, mas quis ir visitar a Eleita do Senhor. Aliás, para legitimar essa sua viagem tão distante, ofereceu-se para a pregação de um Tríduo ao Santíssimo Coração de Jesus, na Igreja-Mãe. E todos os dias ia ao lado da cama da piedosa Autora com quem, de muito bom grado, tratava temas de espiritualidade.

Depois de partir daquela cidade, conservou sempre a mais grata memória dessa alma tão querida a Jesus.

Após ter esgotado a 3ª edição, chegou a 4a, aumentada de outros escritos da Serva de Deus. Dessa vez a impressão foi feita na nossa Tipografia, gerida pelas Irmãs da minha Confiança em Messina, em número de 15 mil exemplares. Repetimos o aviso e os pedidos chegaram a todas as nossas Casas.

Não é sem motivo que este livro suscitou tanto entusiasmo, porque é ditado com o transporte do amor, com tal introspecção dos sofrimentos do Verbo feito carne que arrebata o ânimo de quem o lê e muito mais daquele que o medita.

Mas obtém-se mais, um inegável concurso da Graça que se poderia dizer que deseja duas coisas: uma consiste nas vastas Reparações de todos os pecados do mundo, de todos os tipos, reproduzidas das mesmas que Nosso Senhor Jesus Cristo apresentava interiormente, no tempo da sua Paixão extremamente acerba, ao seu Pai eterno. Por estas reparações da Autora de O Relógio Nosso Senhor, como piedosamente se acredita, prometeu a quem meditar estas Horas e lá onde elas se meditarem, muitas isenções de castigos divinos.

Outra finalidade divina é precisamente a da aplacação da Justiça divina, o perdão dos flagelos que o Senhor prepara.

Depois destas publicações que empreendemos, há capítulos que prenunciam os flagelos divinos, terremotos, guerras, fogo, inundações, devastações dos campos, epidemias, misérias e semelhantes. Tudo, tudo foi predito vários anos antes, e tudo aconteceu, e ainda muito deve realizar-se. Porém, o estado de vítima desta alma e as suas orações e lágrimas, os seus sofrimentos e ousadias de amor a Jesus pouparam uma parte dos flagelos e ainda hão-de poupar outras mais.

Uma característica do grande desapego desta alma de todas as coisas terrestres encontra-se no desprezo delas e na constância em não aceitar qualquer presente ou dinheiro, nem outras coisas.

As pessoas que leram O Relógio da Paixão, e nas quais nasceu um sentido de sagrado afeto por esta alma solitária e desconhecida, muitas vezes me escreveram dizendo que lhe queriam enviar dinheiro. Contudo, ela opôs-se decididamente, como se a tivessem ofendido.

A sua vida é muito modesta. Ela possui pouco e vive com uma amorosa parente que a assiste. O pouco que ambas possuem – não é suficiente para o aluguel da casa e para a manutenção indispensável nessa triste época do alto custo de vida – é completado pelo seu tranqüilo trabalho, como já dissemos antes, do qual obtém algum lucro, do qual deve fruir especialmente a sua amorosa parente, dado que ela não gasta em roupas nem em calçados, e a sua alimentação é de poucos gramas por dia, que lhe é oferecido pela assistente, uma vez que ela nada pede e, além disso, depois de poucas horas de ter ingerido o frugal alimento, vomita-o.

Porém, o seu aspecto não é de uma moribunda, mas nem sequer de uma pessoa perfeitamente sadia. E todavia não está inerte, mas consuma as forças, quer com as sobre-humanas vicissitudes do padecimento e do cansaço noturno, quer com o trabalho diurno.

Portanto, a sua vida reduz-se quase a um milagre perene.

Ao seu grande desapego de qualquer lucro que não obtenha com as suas próprias mãos deve acrescentar-se a sua firmeza de jamais ter desejado aceitar o pouco que, por direito, lhe pertenceria como proprietária literária da edição e da venda de O Relógio da Paixão.

Enquanto a impelia a não o rejeitar, respondeu: «Não tenho qualquer direito, porque o trabalho não é meu, mas de Deus». Não vou além.

É mais celeste que terrestre a vida desta Virgem Esposa de Jesus, que quer passar pelo mundo ignorada e desconhecida, buscando unicamente Jesus e a sua Santíssima Mãe, a quem ela chama Mamãe e de cuja alma recebeu uma especial proteção.

Na medida em que, com a ajuda do Senhor, forem publicados os seus volumosos escritos, que lhe são ditados por Nosso Senhor, pela ternura com que Jesus a trata, pelas palavras dóceis com que a chama, pelos abraços celestes e pela sua amorosa correspondência, revelar-se-ão coisas admiráveis das virtudes singulares desta alma que talvez um dia, depois de sair triunfante dos juízos infalíveis da Santa Igreja, suba aos altares em proteção de muitos e de muitas.



Distribuição dos escritos da piedosa Autora de O Relógio da Paixão



Estes escritos que nos foram confiados pela Serva do Senhor, por ordem autorizada do Arcebispo, a quem ela pertence, podem dividir-se em três partes.

A primeira é um breve resumo da sua Infância e Juventude, antes que fosse condenada a ficar de cama. Trata-se de um verdadeiro compêndio, escrito recentemente por obediência, sem a qual por nenhum pacto ao mundo teria revelado as suas antigas memórias.

Mas são notícias que revelam como Nosso Senhor a predestinava a coisas sublimes.

Quando recebeu esta obediência, consultou Nosso Senhor e desejaria que lhe fosse afastado este cálice sem que o tivesse de beber.

Todavia, Nosso Senhor apoiou a obediência, e eis como ela refere a esta questão.

A segunda parte, que compreende os volumes 1-10, é formada por escritos que remontam à sua vida juvenil; e neles têm início as Revelações atribuídas a Nosso Senhor, que a instrui acerca do começo das práticas de piedade, da mortificação e do exercício de todas as santas virtudes da Fé, da Esperança, da Caridade, da Humildade, da Pureza, da Obediência, da Mansidão, da constância nas obras de bem, e acerca do Amor Divino e de coisas semelhantes.

Trata-se de lições admiráveis, que revelam um espírito sobre-humano, com características muito simples.

A 3a parte encerra todo o objetivo pelo qual Nosso Senhor Jesus Cristo quis escolher para si uma alma como instrumento na sua mão onipotente, desejando plasmá-la à sua maneira e fazer dela um veículo para manifestar ao mundo uma doutrina totalmente nova, em demonstração do que quer dizer Vontade Divina e preparar assim o grande triunfo do terceiro Fiat na terra.

O primeiro Fiat tirou do nada o Universo criado.

Ao segundo Fiat, nos lábios purpúreos da Santíssima Virgem Maria saudada pelo Anjo, devem ser unidas a Encarnação do Verbo Divino no seu Seio puríssimo e a conseqüente Redenção do gênero humano.

O terceiro Fiat foi-nos entregue por Nosso Senhor Jesus Cristo na grandiosa oração do pai-nosso, com estas palavras divinas: «Fiat Voluntas tua, sicut in Coelo et in terra»(Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu).

Esta súplica do terceiro Fiat, que desde há vinte séculos ressoa nos lábios dos filhos da Santa Igreja, no Sacerdócio real do grande Sacrifício da Santa Missa, apesar de todas as oposições e iniquidades humanas, esta súplica deve obter a sua grande realização.

Ela não pode deixar de ser ouvida. Todos os Santos, Doutores, Pregadores e Mestres da Teologia ascética decantaram o cumprimento da Vontade de Deus como ápice da perfeição. Verificaram-se três níveis de uniformidade ao Desejo Divino, de conformidade com os mesmos e de transformação, ou seja, de aniquilamento da nossa vontade à Vontade Divina.

Todavia, as revelações que preenchem volumes de manuscritos da Autora da Paixão sobre este argumento têm a característica de uma instrução totalmente nova e celeste, e sempre da maneira mais fácil e persuasiva. As comparações e as semelhanças ilustram de forma admirável esta doutrina ditada às vezes de modo autorizado, que faz recordar a afirmação de São João no Evangelho: «Jesus ensinava com autoridade».

Às três partes da uniformidade, da conformidade e da transformação, esta nova doutrina acrescenta a quarta qualidade em que tudo se resume, e que até agora nunca foi expressa por qualquer escritor, mas que de certa forma se radica nos Livros Sagrados, especialmente no Salmista e no Apóstolo das gentes.

Isto significa atuar em tudo na Vontade Divina.

Quando esta fórmula apareceu pela primeira vez nos dois pequenos tratados deO Relógio da Paixão, para muitos – aliás, para todos – pareceu pouco compreensível.

Não obstante, algo deveria ser entendido à primeira vista, considerando a preposição em, articulada ou não, que abre o horizonte a grandes significados.

O símbolo dos Apóstolos faz-nos dizer: creio em Deus Todo-Poderoso, o que é muito diverso de afirmar: creio [que] Deus [é] Todo-Poderoso, ou a Deus Todo-Poderoso.

Depois da leitura de O Relógio da Paixão, muitas pessoas pediram explicações acerca do que haveria de significar o atuar e viver na Vontade Divina.

Estes escritos admiráveis, que piedosamente acreditamos que são ditados pelo Verbo Divino feito homem, conduzem pouco a pouco quem os lê com Fé sempre de amor, à compreensão desta fórmula. As revelações atuam de muitas formas novos horizontes, desde agora não contemplados sobre os mistérios do Desejo Divina e sobre o fato de se atuar e de se viver nela. E uma coisa é certa, que antes ainda de se chegar ao conhecimento total do que significa atuar e viver na Vontade Divina, quem lê estes escritos não pode deixar de ficar apaixonado pela Vontade de Deus, de sentir novos e generosos impulsos, e um compromisso divino em transformar-se totalmente a si mesmo na Vontade Divina.

Estas revelações diriam que esta ciência da Vontade Divina formará Santos com uma perfeição mais sublime da de todos os Santos que jamais existiram.

Se alguém considerar esta expressão exagerada, convido-o a ler o tratado da Santíssima Virgem Maria, do Beato Luís M. Grignon, onde encontrará uma página em que se diz que na Santa Igreja deverão nascer homens de santidade em comparação com os quais os maiores Santos da Igreja não sejam senão plantazinhas diante de árvores frondosas.

Estas predições evocariam a doutrina do livro do teólogo alemão Roleng: livro este que foi traduzido em francês e do francês em italiano, e depois oferecido ao Santo Padre Pio X, que escreveu uma missiva de louvor ao tradutor, elogiando também os estudos feitos por Roleng sobre a Sagrada Escritura, sobre eventos futuros.

Será então, porventura, que se concretizará o triunfo do Fiat com uma só grei e um só Pastor?

De qualquer forma, Deus prepara sempre os seus triunfos universais com triunfos parciais.

Ele forjou esta alma desconhecida e transformou-a no seu Desejo Divino, de tal maneira que da vontade da alma e da de Jesus adorável se formou uma única vontade: a Vontade Divina.

Quem sabe quantas almas se hão de formar com esta doutrina celeste, antes que chegue o seu triunfo universal.



* * *

Exortação


Ó almas que amais a Jesus Cristo, ó almas que fazeis a profissão de vida espiritual e especialmente vós. Esposas de Jesus Cristo, a Ele consagradas com os votos ou com a pertença às sagradas Congregações, considerai de tudo o que se disse quanta felicidade proporcionais ao Sacratíssimo Coração de Jesus quando praticais estas Horas da Paixão. É particularmente para vós que este Relógio da Paixão foi inspirado por Nosso Senhor nessa alma solitária e contemplativa, que desde há muitos anos o exerce com grande proveito para si mesma e para toda a Santa Igreja. Graças especiais vos são reservadas se vos afeiçoardes a este santo exercício diário e tiverdes os mesmos sentimentos e as mesmas disposições da alma o ditou e o pratica há muito anos.

Dos sentimentos tão íntimos e das disposições tão amorosas desta alma, passareis aos sentimentos e às disposições mesmos de Nosso Senhor Jesus Cristo nas 24 Horas em que padecia por nosso amor. E é impossível que neste exercício compassivo e nos próprios afetos incompreensíveis da Mãe Divina das Dores! Será uma vida com Jesus sofredor e com Maria paciente, e uma fruição dos imensos bens eternos para si e para todos!

O que dizer do grande bem que isto seria para cada Comunidade religiosa, em vista de progredir em santidade, conservar-se, crescer em número de almas eleitas e gozar de mais genuína prosperidade? Portanto, quanto empenho cada Comunidade deveria assumir, praticando constantemente este piedoso exercício! E as almas daquela Comunidade que dia após dia se aproximam da Santa Mesa receberiam a Sagrada Comunhão com tais disposições de fervor e com amor a Jesus, que cada Comunhão seria como que renovadas núpcias da alma com Jesus na mais íntima e crescente união de amor!

Se Jesus, por uma só alma que percorresse estas Horas, pouparia castigos àquela cidade e concederia graças a tantas almas quantas são as palavras deste Relógio doloroso, quantas graças poderia esperar uma Comunidade, de quantos defeitos e sucumbências seria curada ou preservada, e de quantas almas obteria a santificação e a salvação, praticando este piedoso exercício!

Se em cada Comunidade houvesse uma alma que se aplicasse em praticá-lo com maior atenção durante o dia, às vezes mesmo no meio das jornadas atarefadas, e à noite com uma breve vigília!

Mas seria o cúmulo do divino e o máximo do proveito para a Comunidade e para o mundo inteiro, se tal exercício fosse praticado por todas, alternadamente de dia e de noite!


* * *

Método para a piedosa prática do Relógio da Paixão


Há quem julgue que se trata de algo árduo, se não impossível, praticar esta devoção do Relógio doloroso. Há pessoas que se podem perguntar como é possível meditar todos os dias 24 horas, das 17 de hoje às 17 de amanhã, e depois recomeçar do início? Sem dúvida, humanamente isto é impossível. Dizemos humanamente, porque com uma assistência especial da Graça Divina esta meditação contínua e ininterrupta é o que faz desde há muitos anos aquela Alma solitária que escreveu esta pequena obra.

Mas sem que pretendamos tanto, a meditação das 24 Horas da Paixão, Morte e Sepultura de Nosso Senhor Jesus Cristo, pode-se adaptá-la de várias maneiras, em conformidade com as diversas condições e circunstâncias.



Primeira maneira


A primeira destas maneiras adaptáveis para pessoas que levam uma vida bastante retirada e contemplativa, ou em um Mosteiro ou ainda em casa (e certamente são poucas), seria de ler primeiro o inteiro livro de O Relógio da Paixão, um pouco de cada vez em vários dias, na medida do possível, e meditá-lo. Depois de o ter terminado inteiramente e de ter formado uma idéia de conjunto, a pessoa devota colocará diante de cada hora o título e o conteúdo dessa mesma hora; e quando não puder fazer mais, desempenhando as outras indispensáveis ocupações do dia, cuidará pelo menos de recordar-se do mistério de cada hora sucessiva, concentrando-se com a mente na Presença Divina e acompanhando com algumas jaculatórias interiores. Para esta finalidade será muito útil recordar-se do Horário das 24 horas com o mistério correspondente, como está disposto na página 73, ou ter em vista o elenco das horas.

Será ainda melhor se em algumas horas a pessoa puder dar uma olhada no relativo mistério e conferi-lo no livro. Se a alma se aplicar com esta intenção e atenção, e perseverar, não lhe faltará a ajuda da Graça Divina.

Isto é válido para dia; mas à noite, dado que é indispensável dormir pelo menos de cinco a seis horas, antes de ir para a cama a pessoa devota poderá ler uma ou duas Horas antecipadamente (cuja leitura, como dissemos, não deve superar 60 minutos). Das outras Horas que pertencem à noite, a pessoa há de ler pelo menos os títulos; depois, formar a intenção que, dormindo nessas horas noturnas, pretende meditar com o espírito as Horas que não pode meditar acordado. Na sua bondade infinita, Nosso Senhor aprecia esta intenção como se fosse a própria ação.



Segunda maneira


As pessoas que vivem suficientemente ocupadas durante o dia, por múltiplos afazeres também domésticos, poderiam praticar este exercício piedoso de outra maneira, que lhes seja mais adapta. Admitimos como certo o fato de que devem aplicar-se pelo menos uma hora por dia na leitura e meditação da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo que seja em duas etapas, ou seja, meia hora de manhã e meia hora à noite. Em vez de escolherem outro livro, eles devem optar por este e, começando pela primeira página deste Relógio doloroso, leiam e meditem algumas das suas páginas por cerca de trinta minutos e depois, na segunda meia hora à noite, continuem com as páginas seguintes; e assim cada vez, sempre em continuação, até que após um certo número de dias, o terminar inteiramente.

Então, recomecem do início para voltarem a concluí-lo, e depois novamente desde o princípio; e assim continuem a fazê-lo por vários meses. Após terem assim formado uma idéia de todo o Relógio da Paixão, poderiam muito bem continuar com a habitual meditação de trinta minutos na parte da manhã e trinta minutos à noite, geralmente variando as Horas, mas nas outras horas do dia e da noite leiam os títulos, com a intenção de desejar meditar estes mistérios de hora em hora, isto é, mesmo no meios das ocupações, e dormindo à noite desejem intencionalmente meditar os mistérios correspondentes, dos quais hão de ler ou recordar na mente somente os títulos.

Porém, nas sextas-feiras seria desejável que se meditassem a Crucifixão e as três horas de agonia na Cruz.

Entenda-se bem que esta leitura ou meditação, assim como qualquer oração mental, deve ser acompanhada de uma preparação, portanto de afetos, atos de amor e semelhantes, e depois é necessário fazer a ação de graças.



Terceira maneira


Um método para terminar todas as Horas da Paixão de dia e de noite consistiria em associar 24 pessoas neste exercício e cada uma meditar uma Hora. Aquelas a quem fossem reservadas as horas da noite, cada uma poderia ocupar-se da sua Hora com antecedência à tarde e depois fazer a intenção de a repetir na hora correspondente, mesmo no meio do sono. E se depois se encontrassem oito pessoas fervorosas e cada uma disposta a fazer uma hora de vigília durante a noite, por amor de Jesus Cristo que passava todas as noites em prece por nós, oh então das 10 da noite às 6 da manhã cada uma destas oito pessoas meditaria uma Hora atribuída e assim as 24 Horas seriam praticadas em continuação, com grande deleite de Nosso Senhor, com grande proveito para os 24 praticantes e para o bem de toda a Santa Igreja militante e purificadora, e para glória da Triunfadora!

Desta maneira, com um pouco de boa vontade, este santo exercício poderia ser praticado nas Comunidades religiosas observantes, que dele receberiam especiais bênçãos de Deus Todo-Poderoso.



* * *



Publicação de uma carta enviada pela piedosa Autora

ao Rev.do Côn. Aníbal di Francia



«Reverendíssimo Padre

Eis que finalmente lhe envio as Horas escritas da Paixão, e tudo para glória de Nosso Senhor. Incluo também outro folheto que contém os afetos e as lindas promessas de Jesus para quem pratica estas Horas da Paixão. Julgo que se quem as meditar é pecador, se converterá; se é imperfeito, tornar-se-á perfeito; se é santo, será mais santo; se é tentado, triunfará; se é sofredor, encontrará nestas Horas a força, o remédio e o conforto; e se a sua alma é frágil e pobre, encontrará o alimento espiritual e um espelho onde se admirará continuamente para ataviar-se e tornar-se semelhante a Jesus, nosso modelo. O deleite que Jesus abençoado haure da meditação destas Horas é tão grande que desejaria que destas meditações houvesse pelo menos um exemplar para cada cidade ou aldeia e elas fossem praticadas; então, nessas reparações Jesus sentiria reproduzir-se a sua própria voz e as suas orações, que ela dirigia ao seu Pai nas 24 Horas da sua dolorosa Paixão; e se isto fosse feito em cada aldeia ou cidade por algumas almas, Jesus parece fazer-me entender que a Justiça divina ficaria parcialmente aplacada e em parte terminariam e seriam interrompidos os seus flagelos nestes tristes tempos de desgraça e de derramamento de sangue.

Reverendo Padre, dirija este apelo a todos: cumpra assim a pequena obra que o meu amável Jesus me realizar. Digo-lhe também que o objetivo destas Horas da Paixão não é tanto de narrar a história da Paixão, dado que existem muitos livros que abordam este piedoso tema, e não seria necessário escrever outro; mas a sua finalidade é a reparação, unindo os vários pontos da Paixão de Nosso Senhor à diversidade de tantas ofensas e, juntamente com Jesus, fazer a digna reparação das mesmas, fazendo-lhe quase tudo aquilo que todas as criaturas lhe devem; e daqui os vários modos de reparação; nestas Horas, isto é, em alguns trechos abençoa-se e em outros compadece-se; em alguns louva-se e em outros conforta-se o sofredor; em alguns compensa-se e em outros suplica-se, reza-se e pede-se. Por isso deixo-lhe, Reverendo Padre, [a tarefa] de tornar conhecida a finalidade destes escritos com um prefácio».


* * *

As vinte e quatro Horas da Paixão


Preparação para cada Hora


Ó meu Senhor Jesus Cristo, prostrado na tua presença divina, suplico o teu amorosíssimo Coração que deseje admitir-me na dolorosa meditação das 24 Horas, em que por nosso amor tanto quiseste sofrer no teu corpo adorável e na tua alma santíssima, até à morte de cruz. Deus, dá-me ajuda, graça, amor, profunda compaixão e compreensão dos teus sofrimentos, enquanto agora medito a Hora_____.

E para aquelas que não posso meditar, ofereço-te a vontade que teria de o fazer e pretendo intencionalmente meditá-las em todas as horas que sou obrigado a aplicar-me nos meus deveres ou a dormir.

Ó misericordioso Senhor, aceita a minha amorosa intenção e faz com que seja de proveito para mim e para todos, como se efetiva e santamente executasse quanto eu desejaria praticar.

Entretanto dou-te graças, ó meu Jesus, que por meio da oração me chamas à união contigo e, para agradar-te ainda mais, tomo os teus pensamentos, a tua língua, o teu coração e com eles pretendo rezar, amalgamando-me inteiramente na tua Vontade e no teu amor e, estendendo os braços para abraçar-te, apoio a minha cabeça no teu coração e começo.


Agradecimento depois de cada Hora

Meu amável Jesus, Tu chamaste-me nesta Hora da tua Paixão a fazer-te companhia e eu vim. Parecia que te ouvia, angustiado e sofredor, pedir, reparar e sofrer, e com as vozes mais comovedoras e eloqüentes perorar a salvação das almas.

Procurei seguir-te em tudo e agora, devendo deixar-te para me dedicar às minhas habituais ocupações, sinto o dever de dizer-te «obrigado», e «bendigo-te».

Sim, ó Jesus, repito-te obrigado milhares de vezes e bendigo-te por tudo o que fez e sofreu por mim e por todos. Obrigado e bendigo-te por cada gota de sangue que derramaste, cada respiro, cada palpitação, cada passo, cada palavra, cada olhar, cada amargura e cada ofensa que suportaste. Ó meu Jesus, pretendo assinalar-te em tudo com um «obrigado» e um «bendigo-te».

Deus, ó Jesus, faz com que todo o meu ser te mande um fluxo contínuo de agradecimentos e de bênçãos, de forma a atrair sobre mim e sobre todos o fluxo das tuas bênçãos e graças. Deus, ó Jesus, aperta-me ao teu coração e com as tuas mãos santíssimas marca cada partícula do meu ser com o teu «bendigo-te», para fazer com que de mim não saia senão um contínuo hino a ti.


As Horas da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Primeira Hora - Das 5 às 6 da tarde


Jesus despede-se de sua Santíssima Mãe

Ó Mamãe celeste, a hora da separação já se apressa e eu venho a ti. Ó Mãe, dá-me o teu amor e as tuas reparações, dá-me a tua dor, porque juntamente contigo quero seguir passo a passo o adorado Jesus.

E eis que Jesus vem, e tu, com o ânimo transbordante de amor, corres ao seu encontro e, vendo-O tão pálido e triste, o teu coração aperta de dor, as forças faltam-te e já estás prestes a cair aos seus pés.

Ó minha doce Mamãe, tu sabes porque o adorável Jesus veio ter contigo? Ah, Ele veio para dar-te o último adeus, para dizer-te a derradeira palavra, para receber o último abraço!

Ó Mãe, estreito-me a ti com toda a ternura de que este meu pobre coração é capaz a fim de que, apertado e envolvido a ti, também eu possa receber os abraços do adorado Jesus. Porventura me desdenharás? Ao contrário, não é um conforto para o teu coração ter uma alma próxima de ti, para compartilhar os seus sofrimentos, os afetos as reparações?

Ó Jesus, nesta hora tão angustiante para o teu terníssimo coração, que ensinamento nos dás, de filial e amorosa obediência à tua Mamãe! Que doce harmonia perpassa entre ti e Maria! Que suave encanto de amor, que sobe até ao trono do Eterno e se dilata a salvação de todas as criaturas da terra!

Ó minha Mamãe celeste, tu sabes o que quer de ti o adorado Jesus? Somente a última bênção. É verdade que de todas as partículas do teu ser só saem bênçãos e louvores ao teu Criador; mas ao despedir-se de ti, Jesus quer ouvir estas doces palavras: «Bendigo-te, ó Filho». E aquele «Bendigo-te» cancela todas as blasfêmias do seu ouvido e, doce e suave, desce ao seu coração; e, como que reparando todas as ofensas das criaturas, Jesus quer o teu «Bendigo-te».

Também eu me uno a ti, ó doce Mamãe: nas asas dos ventos desejo dar voltas no Céu para pedir ao Pai, ao Espírito Santo, a todos os anjos, um «Bendigo-te» a Jesus, a fim de que, ao ir ter com Ele, lhe possa levar as suas bênçãos. E aqui na terra desejo ir a todas as criaturas e pedir de todos os lábios, de cada palpitação, da cada passo, da cada respiro, de cada olhar, de cada pensamento, bênçãos e louvores a Jesus; e se ninguém me quiser dá-los, eu mesmo lhos pretendo dar por eles.

Ó doce Mamãe, depois de ter vagado prolongadamente para pedir à Sacrossanta Trindade, aos anjos, a todas as criaturas, à luz do sol, ao perfume das flores, às ondas do mar, a cada sopro de vento, a cada centelha de fogo, a cada folha que se move, ao brilho das estrelas, a cada movimento da natureza, um «Bendigo-te»; venho a ti e juntamente com as tuas, coloco as minhas bênçãos.

Ó minha doce Mamãe, vejo que disto tu recebes conforto e alívio e ofereces a Jesus todas as minhas bênçãos, em reparação das blasfêmias e maldições que Ele recebe das criaturas. Mas enquanto ofereço tudo a ti, ouço a tua voz trêmula que diz:«Filho, abençoa-me também a mim!».

Ó meu doce Amor, Jesus, volta a abençoar-me juntamente com a tua Mamãe; abençoa os meus pensamentos, o meu coração, as minhas mãos, as minhas obras, os meus passos e, juntamente com a tua Mãe, abençoa todas as criaturas.

Ó minha Mãe, quando olhas para o rosto do amargurado Jesus, pálido, triste e sofredor, nasce em ti a recordação das dores que daqui a pouco Ele deverá padecer. Prevês o seu rosto coberto de escarros e abençoa-lo, a cabeça traspassada pelos espinhos, os olhos vedados, o corpo dilacerado pelas flagelações, as mãos e os pés furados pelos cravos, e onde quer que Ele estiver para ir, tu segue-lo com as tuas bênçãos; e juntamente contigo, sigo-o também eu. Quando Jesus for atingido pelas flagelações, coroado de espinhos, esbofeteado, traspassado pelos pregos, encontrará em toda a parte, juntamente com o teu, também o meu «Bendigo-te».

Ó Jesus, ó Mãe, tenho compaixão de vós; a vossa dor è imensa nestes últimos momentos; o coração de um parece dilacerar o coração da outra.

Ó Mãe, tira o meu coração da terra e vincula-o com força a Jesus, a fim de que, junto a ele, possa tomar parte nas tuas dores e, enquanto vos estreitais, vos abraçais, vos lançais mutuamente os últimos olhares, os derradeiros beijos, estando eu no meio dos vossos dois corações, possa receber os vossos últimos beijos, os vossos derradeiros abraços. Não vedes que não posso ficar sem vós, apesar da minha miséria e da minha tibieza?

Jesus, Mamãe, conservai-me unidos a vós; dai-me o vosso amor, o vosso Desejo; fulminai o meu pobre coração, cingi-me entre os vossos braços; e juntamente contigo, ó doce Mãe, quero seguir passo a passo o adorado Jesus, com a intenção de lhe dar conforto, alívio, amor e reparação para todos.

Ó Jesus, juntamente com a tua Mamãe, beijo-te o pé esquerdo, implorando-te te querer perdoar-me, assim como todas as criaturas pelas numerosas vezes que não caminhamos rumo a Deus.

Beijo o teu pé direito: perdoa-me, a mim e a todos, pelas inúmeras vezes não seguimos a perfeição que tu desejavas de nós.

Beijo-te a mão esquerda: comunica-nos a tua pureza.

Beijo a tua mão direita: abençoa todos as minhas palpitações, pensamentos, afetos, a fim de que, revigorados pela tua bênção, todos se santifiquem; e juntamente comigo abençoa ainda todas as criaturas e sela a salvação das suas almas com a tua bênção.

Ó Jesus, juntamente com a tua Mamãe abraço-te e, beijando o teu coração, peço-te que coloques no meio dos vossos dois corações também o meu, para que se alimente continuamente dos vossos amores, das vossas dores, dos vossos próprios afetos, dos vossos desejos e da vossa própria vida. Assim seja.

Reflexões e Práticas

Antes de dar início à sua paixão, Jesus vai ter com sua Mãe para pedir-lhe a bênção. Neste ato, Jesus ensina-nos a obediência, não apenas externa, ma também interna, que devemos ter para corresponder às inspirações da graça. Às vezes não estamos prontos a concretizar uma boa inspiração, ou porque somos impedidos pelo amor próprio a que se une a tentação, ou por respeito humano, ou ainda por não fazer santa violência a nós mesmos.

Contudo, quando rejeitamos a boa inspiração de exercer uma virtude, de realizar um ato virtuoso, de fazer uma boa obra, de praticar uma devoção, faz com que o Senhor se afaste, privando-nos de novas inspirações.

Ao contrário, a pronta correspondência, piedosa e prudente às santas inspirações, atrai-nos maiores luzes e graças.

Em caso de dúvida, recorre-se prontamente e com reta intenção ao grande instrumento da oração e ao conselho reto e probo. Assim, o bom Deus não deixa de iluminar a alma a realizar a salutar inspiração, e a fazer com que esta cresça, para o proveito sempre maior da mesma.

As nossas ações, os nossos atos, as nossas orações, as Horas da Paixão, devemos fazê-las com as mesmas intenções de Jesus, segundo a sua Vontade, e sacrificando-nos a nós mesmos como Ele, para a glória do Pai e para o bem das almas.

Devemos estar dispostos a sacrificar-nos em tudo por amor do nosso amável Jesus, uniformando-nos ao seu espírito, agindo com os seus próprios sentimentos e abandonando-nos n’Ele, não só em todas as dores e contrariedades externas, mas muito mais em tudo aquilo que puder dispor no nosso interior; e assim, no momento oportuno, encontrar-nos-emos prontos a aceitar qualquer sofrimento. Fazendo assim, daremos ao nosso Jesus pequenas porções de doçura; além disso, se fizermos tudo isto segundo a Vontade de Deus, que contém todas as ternuras, todas as alegrias e de modo imenso, daremos a Jesus grandes porções de doçura, de maneira a mitigar a intoxicação que lhe proporcionam as criaturas e consolar o seu Coração Divino.

Antes de começar qualquer ação, invoquemos sempre a bênção de Deus, para fazer com que as nossas ações tenham o toque da divindade e atraiam as suas bênçãos sobre nós, e não só, mas sobre todas as criaturas.

Meu Jesus, a tua bênção me preceda, me acompanhe e me siga, a fim de que tudo o que eu fizer possua o sinal do teu «Bendigo-te».


Segunda Hora - Das 6 às 7 da tarde


Jesus separa-se de sua Santíssima Mãe
e vai ao cenáculo

Meu adorável Jesus, enquanto juntamente contigo participei das tuas dores e da tua aflita Mamãe, vejo que decides partir para ir aonde a Vontade do Pai te chama. O amor entre Filho e Mãe é tanto que vos torna inseparáveis, pelo que tu te abandonas ao coração da Mamãe e a Rainha e doce Mamãe se coloca no teu, pois de outra forma seria impossível separardes-vos. Mas depois, abençoando-vos reciprocamente, tu lhe dás o último beijo para animá-la nas dores acerbas que está para suportar, lhe dás o derradeiro adeus e partes.


Mas a palidez do teu rosto, os teus lábios trêmulos, a tua voz sufocada, como se quisesse desatar em pranto ao dizer adeus, ah, tudo me diz quanto a amas e como sofres ao deixá-la!

Mas para cumprir a Vontade do Pai, com os vossos corações unidos um ao outro, submeteis-vos a tudo, desejando reparar por aqueles que, para não renunciar às ternuras de parentes e amigos, aos vínculos e afeições, não se preocupam em cumprir a santa Vontade de Deus, nem em corresponder ao estado de santidade a que Deus os chama. Quanta dor te causam estas almas, ao afastarem do seu coração o amor que lhes queres dar, para contentarem-se do amor das criaturas!

Meu adorável amor, enquanto juntamente contigo reparo, permite-me que permaneça com a tua Mamãe para consolá-la e sustentá-la, enquanto partes; depois acelerarei o passo para ir ao teu encontro. Mas é com suma dor que vejo que a minha angustiada Mamãe treme, e a dor é tanta que, enquanto está prestes a dizer adeus ao Filho, a voz desfalece nos seus lábios e ela não consegue articular uma só palavra, quase desmaia e no seu desfalecimento de amor diz: «Meu Filho, meu Filho, abençôo-te! Que amarga separação, mais cruel que toda a morte!». Mas a dor volta a impedir-lhe de falar e emudece-a!

Rainha desconsolada, deixa-me que te sustenha, que enxugue as tuas lágrimas e que me compadeça diante da tua amarga dor! Minha mamãe, não te deixarei sozinha; e tu, leva-me contigo, ensina-me neste período tão doloroso para ti e para Jesus, o que devo fazer, como hei de defendê-lo, repará-lo e consolá-lo, e se devo entregar a minha vida para salvaguardar a sua.

Não, não me afastarei to teu manto. Ao teu sinal, voarei até Jesus e apresentar-lhe-ei o teu amor, os teus afetos, os teus beijos juntamente com os meus, e colocá-los-ei em cada ferida, em cada gota do teu sangue, em cada pena e insulto a fim de que, sentindo os beijos e o amor da Mamãe em cada pena, as suas dores sejam aliviadas. Depois, voltarei para baixo do teu manto, levando-te os seus beijos para confortar o teu coração traspassado. Minha Mamãe, o meu coração pulsa, quero ir ter com Jesus. E enquanto beijo as tuas mãos maternas, tu abençoas-me como abençoaste a Jesus e permites que eu vá ter com ele.

Meu doce Jesus, o amor indica-me os teus passos e alcanço-te, enquanto percorres as ruas de Jerusalém juntamente com os teus amados discípulos. Olho para ti e vejo-te ainda pálido. Ouço a tua voz doce, sim, mas tão triste que despedaça o coração dos teus discípulos, que ficam perturbados.

«É a última vez - dizes tu - que percorro estas ruas sozinho; amanhã percorrê-las-ei atado, arrastado entre mil insultos». E indicando os pontos onde serás mais vituperado e dilacerado, continuas a dizer: «A minha vida aqui na terra está para terminar, assim como o sol está prestes a pôr-se, e amanhã a esta hora já não serei vivo! Mas como o sol ressurgirei no terceiro dia!».

Quando dizes isto, os Apóstolos entristecem-se, emudecem e não sabem o que responder. Mas tu acrescentas: «Coragem, não vos desanimeis; eu não vos abandono e serei sempre convosco; porém, é necessário que eu morra para o bem de todos vós».

Ao dizeres isto, comoves-te, mas com voz trêmula continuas a instruí-los. E antes de te fechares no cenáculo, contemplas o sol que se põe, como a tua vida que está para terminar; ofereces os teus passos àqueles que se encontram no ocaso da própria vida e dás-lhes a graça de fazer com que esta termine em ti, reparando por aqueles que, não obstante os desprazeres e os reveses da vida, se obstinam em não se render a ti.


Depois olhas de novo para Jerusalém, o centro dos teus prodígios e das predileções do teu coração que, em contrapartida, já te está preparando a cruz, afiando os pregos para cometer o deicídio, enquanto tu tremes, sentes o teu coração destroçado e choras a sua destruição.

Assim, reparas para tantas almas a ti consagradas, que com muito cuidado procuravas formar como portentos do teu amor, e elas, ingratas e desagradecidas, fazem-te padecer ulteriores amarguras! Quero reparar juntamente contigo, para aliviar o tormento do teu coração.

Mas vejo que ficas estupefato ao ver Jerusalém e, afastando o olhar, entras no cenáculo. Meu amor, aperta-me ao teu coração a fim de que eu faça minhas as tuas amarguras, para oferecê-las juntamente contigo; tu conserva com piedade a minha alma e, derramando sobre ela o teu amor, abençoa-me.



Reflexões e Práticas

Jesus separa-se da sua Mãe com prontidão, não obstante isto suscita aflição ao seu Coração extremamente terno.

Estamos nós tão prontos a sacrificar, para cumprir a Vontade divina, também os afetos mais legítimos e santos?

(Examinemo-nos especialmente nos casos de afastamento da Providência Divina sensível, ou da devoção sensível).


Jesus não dava estes derradeiros passos em vão; neles, glorificava o Pai e pedia a salvação das almas. Nos nossos passos, devemos ter as mesmas intenções de Jesus, ou seja, de nos sacrificarmos pela glória do Pai e para o bem das almas. Além disso, devemos imaginar que seguimos as pegadas de Jesus Cristo; e como Jesus Cristo não caminhava em vão, mas inseria nos seus passos aqueles de todas as criaturas, reparando todos os passos equivocados para prestar ao Pai a glória que lhe é devida, e vida a todos os passos das criaturas, para que possam percorrer o caminho do bem, assim faremos nós, seguindo as pegadas de Jesus Cristo com as suas mesmas intenções.

Quando caminhamos pela rua, fazemo-lo com modéstia, recolhidos de modo a servir de exemplo para os outros? Enquanto o aflito Jesus caminhava, de vez em quando dirigia algumas palavras aos Apóstolos, falando-lhes da sua Paixão, já iminente; e nós, nos nossos diálogos, o que dizemos?

Nas nossas conversas recorremos porventura, quando nos é oferecida a ocasião, ao argumento da Paixão do Redentor divino?

Jesus, cheio de amor, procurava confortar os Apóstolos quando eles se entristeciam e desanimavam. Nas nossas conversas, manifestamos acaso a intenção de aliviar Jesus Cristo, procuramos cumprir a Vontade de Deus, infundindo no próximo o espírito de Jesus Cristo? Jesus vai ao Cenáculo: devemos encerrar os nossos pensamentos, afetos, palpitações, preces, ações, alimentação e trabalho no Coração de Jesus Cristo no ato de atuar e, agindo assim, as nossas ações adquirirão a atitude divina. Mas dado que é árduo conservar sempre esta atitude divina, porque a alma dificilmente consegue fundir os seus atos de maneira contínua nEle, pode suprir então com a atitude da sua boa vontade, e Jesus apreciá-lo-á muito; far-se-á sentinela vigilante de cada um dos seus pensamentos, palavras e palpitações; manifestá-los-á dentro e fora de Si, conservando-os com grande amor, como fruto da boa vontade da criatura. Quando então a alma, unindo-se a Ele, cumpre os seus atos imediatos com Jesus, o bom Jesus sente-se tão atraído por esta alma que fará ao mesmo tempo o que ela fizer, e transformará em divina a ação da criatura. Tudo isto é efeito da Bondade de Deus, que tudo considera e tudo recompensa, mesmo que seja um pequeno ato, na Vontade de Deus, para fazer com que a criatura em nada seja defraudada.

Ó minha vida e meu tudo, os teus passos orientem os meus e, enquanto piso a terra, faz com que os meus pensamentos estejam no Céu!


Terceira Hora - Das 7 às 8 da noite


A Ceia legal

Ó Jesus, já chegas ao Cenáculo juntamente com os amados discípulos e sentas-te à mesa da ceia com eles. Quanta doçura, quanta afabilidade demonstras em toda a tua pessoa, abaixando-te para tomar pela última vez o alimento material! Em ti, tudo é amor; também nisto tu não só reparas os pecados da gula, mas impetras a santificação do alimento.

Jesus, minha vida, o teu olhar dócil e penetrante parece perscrutar todos os apóstolos e também naquele ato de tomar o alimento, o teu coração é traspassado, ao veres os teus queridos apóstolos ainda débeis e frágeis, especialmente o pérfido Judas, que já colocou um pé no inferno. E tu, do íntimo do teu coração, dizes com amargura:«Qual é a utilidade do meu sangue? Eis uma alma que tanto beneficiei: está perdida!».

E olhas para ele com os teus olhos cintilantes de luz e de amor, como que para fazê-lo compreender o grande mal que se prepara para realizar. Mas a tua suprema caridade faz com que suportes esta dor e não a manifestaste nem sequer aos teus amados discípulos.

E enquanto te entristeces por Judas o teu coração cumula-se de alegria quando vês à tua esquerda o seu querido discípulo João, a tal ponto que, não podendo mais conter o amor, atraindo-o docilmente a ti, lhe fazes reclinar a cabeça sobre o teu peito, fazendo-o antegozar o paraíso.

E é nesta hora solene que nos dois discípulos são representados os dois povos, o réprobo e o eleito: o réprobo em Judas, que já sente o inferno no seu coração; o eleito em João, que em ti descansa e goza.

Ó meu dócil Bem, também eu me aproximo de ti e, juntamente com o teu amado discípulo, quero apoiar a minha cabeça no teu adorável peito e suplicar-te que me faças experimentar também nesta terra as delícias do céu onde, arrebatado pelas doces harmonias do teu coração, a terra já não me seja terra, mas céu.

Mas nessas harmonias dulcíssimas e divinas percebo que em ti se sentem palpitações dolorosas: são pelas almas extraviadas! Ó Jesus, por favor, não permitas que outras almas se percam; faz com que a tua palpitação, fluindo na deles, lhes consinta experimentar as palpitações da vida celestial, como as sentiu o teu querido discípulo João e, atraídos pela suavidade e docilidade do teu amor, todas elas possam render-se a ti.

Ó Jesus, enquanto permaneço apoiado no teu peito, dá também a mim o alimento, como o deste aos apóstolos: o alimento do amor, o alimento da palavra divina, o alimento da tua Vontade Divina. Ó meu Jesus, não me negues este alimento que tu tanto desejas dar-me, para que em mim se forme a tua própria vida.

Meu dócil Bem, enquanto estou perto de ti, vejo que o alimento que tu tomas juntamente com os teus diletos discípulos não é senão um cordeiro. Este é o cordeiro figurativo; e assim como neste cordeiro não permanece o humor vital pela força do fogo, também tu, Cordeiro místico que por amor te deves consumar inteiramente pelas criaturas, não conservarás sequer uma gota de sangue para ti, derramando-o todo por nosso amor.

Por isso, ó Jesus, nada fazes que não represente vivamente a tua dolorosíssima paixão, que tens sempre presente na mente, no coração, em tudo; e isto ensina-me que, se também eu tivesse diante da mente e no coração o pensamento da tua paixão, jamais me negarias o alimento do teu amor. Como te estou grato!

Ó meu Jesus, não te passa despercebido qualquer ato que me diz respeito e que tenciona fazer-me um bem especial. Por isso, peço-te que a tua paixão esteja sempre na minha mente, no meu coração, nos meus olhares, nos meus passos e nos meus sofrimentos, a fim de que, para onde quer que me volte, dentro e fora de mim, te encontre sempre presente em mim; e concede-me a graça de nunca esquecer o que sofreste e padeceste por mim. Este seja meu ímã que, atraindo todo o meu ser a ti, já não me afaste de ti.

Reflexões e Práticas

Antes de tomar o alimento, unamos as nossas intenções àquelas do nosso amável e bom Jesus, imaginando que na nossa boca está a boca de Jesus, e movamos a nossa língua e as nossas bochechas juntamente com as suas. Fazendo assim, não só atrairemos em nós a vida de Jesus Cristo, mas unir-nos-emos a Ele para prestar ao Pai a glória, o louvor, o amor, a ação de graças e a reparação completa devida às criaturas, e que o bom Jesus fazia no ato de tomar o alimento. Imaginemos também que estamos à mesa perto de Jesus Cristo, e depois que lhe lançamos um olhar, e agora que lhe pedimos que compartilhe a refeição conosco, que beijamos uma orla do seu manto, que contemplamos o movimento dos seus lábios, dos seus olhos celestes, que observamos o repentino obscurecimento do seu amabilíssimo Rosto, ao prever tantas ingratidões humanas!

Como o amante Jesus, que durante a ceia falava da sua Paixão, assim nós, ao tomarmos o alimento, faremos algumas reflexões sobre o modo em que percorremos as horas da Paixão. Os Anjos pendem dos nosso lábios para recolher as nossas preces, as nossas reparações, e levá-las diante do Pai para mitigar de alguma forma a sua justa indignação por tantas ofensas que recebe das criaturas, como lhe faziam quando o nosso Jesus estava na terra. E nós, quando rezamos, podemos porventura dizer que os Anjos estavam felizes, que nos recolhemos e fomos reverentes, de maneira que eles puderam levar ao Céu com alegria as nossas orações, como fizeram com as do nosso Jesus, ou ficaram entristecidos?

Enquanto o aflito Jesus tomava o alimento, ficava petrificado ao ver que perdia Judas, e em Judas via todas as almas que se haviam de perder; e dado que a perda das almas é o seu maior sofrimento, não podendo contê-lo, chamou para perto de si João para dele receber conforto. Assim, também nós lhe estaremos sempre próximos como João, compadecendo-nos dele nas suas dores, alentando-o e propiciando-lhe descanso no nosso coração; faremos nosso o seu sofrimento, identificar-nos-emos nele e assim sentiremos as palpitações daquele Coração divino traspassado pela perda das almas. Dar-lhe-emos as nossas palpitações para curar aquelas feridas e, no lugar destas, colocaremos as almas que querem extraviar-se, a fim de que se convertam e se salvem.

Cada palpitação do Coração de Jesus é um «amo-te» que se repercute em todas as palpitações das criaturas, que gostaria de encerrar todas no seu Coração para ter, em contrapartida, a palpitação das mesmas; mas o amante Jesus não possui a palpitação de muitas delas, e por isso a sua palpitação fica como que sufocada e amargurada. E nós rezamos a Jesus para que assinale a nossa palpitação com o seu «amo-te», a fim de que também o nosso coração possa viver a vida do seu Coração que, repercutindo-se na palpitação das criaturas, as obrigue a dizer «Jesus, amo-te!». Aliás, unir-nos-emos a Ele e o amável Jesus far-nos-á sentir o seu «amo-te» que cumula o Céu e a Terra, circula nos Santos e desce ao Purgatório; todos os corações das criaturas são sensibilizados por este «amo-te» e os próprios elementos sentem a nossa vida, de tal forma que todos experimentam os seus efeitos. Também no seu respiro, Jesus sente-se como que sufocar em virtude da perda das almas; e nós dar-lhe-emos a nossa respiração de amor para o seu alívio e, tomando o seu respiro, sensibilizaremos as almas que se afastam dos seus braços, a fim de lhes dar a vida da respiração divina; para que, em vez de fugir, possam retornar e estreitar-se mais a Ele.

E quando nos encontramos em dificuldade e sentimos que a nossa respiração não é tão livre, então pensemos em Jesus, que na suas respiração contém o respiro das criaturas: também Ele, como as almas se perdem, sente que lhe falta a respiração; então, inserimos o nosso respiro dolente e ofegante na respiração de Jesus para aliviá-lo e, com o nosso sofrimento, corramos ao pecador para obrigá-lo a encerrar-se no Coração de Jesus.

Meu querido Bem, a minha respiração seja um brado contínuo a cada respiro de criatura, e obriga-a a fechar-se na tua respiração. 

A primeira palavra que o amante Jesus pronunciou na Cruz foi a palavra do perdão, para justificar perante o Pai todas as almas, para transformar a justiça em misericórdia. E nós dar-lhe-emos os nossos atos como perdão dos pecadores a fim de que, enternecido pelas nossas desculpas, nenhuma alma possa ir para o inferno. Unir-nos-emos a Ele como sentinelas dos corações das criaturas, para que ninguém o ofenda. Fá-lo-emos desabafar no amor, aceitando de boa vontade tudo o que dispuser de nós: tibiezas, insensibilidades, obscuridades, opressões, tentações, distrações, calúnias, enfermidades, entre outras, para aliviá-lo daquilo que recebe das criaturas. Não é somente com o amor que Jesus desabafa com as almas, mas muitas vezes, quando sente a frieza das criaturas, vai à alma e faz-lhe experimentar a sua frieza, para desafogar com ele; e se a alma a aceitar, Jesus sentir-se-á aliviado de todas as tibiezas das criaturas, e esta frieza será a sentinela no coração dos outros para que com que o amante Jesus seja amado.

Outras vezes, Jesus experimenta no seu coração a insensibilidade dos corações e, não podendo contê-la, quer desabafar e vem ter conosco; toca o seu Coração com o nosso, fazendo-nos partícipes do seu sofrimento, enquanto nós, fazendo nossa a sua dor, a colocaremos em volta do coração do pecador para eliminar a sua insensibilidade e reconduzi-lo até Ele.

 
 
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