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03/05/2016
CLÁUDIO FALA
PEDRAS DIVIDIDAS
 
 
 
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               PEDRAS DIVIDIDAS
 
 
 
Corria o ano de 1968.
 
Na verdade, o dia era 03, e o mês era maio.
 
A Paroquia Nossa Senhora da Glória preparava para uma festa em louvor a Nossa Senhora, e, para homenageá-la estava construindo, no alto do morro atrás da Matriz, uma gruta a Nossa Senhora
 
Para se atingir o topo do morro, onde a gruta estava sendo construída, usava-se uma estradinha muito estreita que subia em ziguezague, com muitas dobras até chegar no alto. As pessoas costumavam subir rezando o Terço ou a Via Sacra, parando em cada quebra, para meditar a estação ou o mistério do Rosário. O acesso era difícil e cansativo, principalmente para os mais idosos, e até impossível para alguns, e para pessoas doentes.
 
Difícil então era o trabalho da construção da gruta, principalmente no que consistia em levar o material necessário para cima: cimento, pedras, areia, ferros... e então o Pároco lançou a ideia que todos acataram: Cada pessoa que subisse o morro para rezar, poderia levar algum material, um balde de areia, uma pedra, uma barrinha de ferro...
 
E assim acontecia!
 
E o material foi sendo colocado no local...
 
Como não são tantas as pessoas que rezam, o material levaria, com certeza intermináveis dias para chegar lá...
 
Mas era assim que acontecia!
 
E, no dia 03, resolvi também eu, fazer a minha penitencia: Rezaria o Rosário e a Via Sacra, e levaria já na primeira viajem, dois baldes de areia e depois viria buscar mais.
 
 -Quero oferecer tudo de ruim, até minha última força... até me esgotar...
 
Antes de atingir a metade do caminho, parei para descansar um pouco, e descansei, descansei, descansei...
 
-Que coisa, estou cansado demais! –Não consigo mais!
 
Esperei mais um pouco, tentei, mas os baldes eram pesados demais!
 
Resolvi fazer diferente:
 
-Vou levar só um balde, e depois buscarei o outro.
 
O balde parecia pesar toneladas! Meu corpo já encharcado de suor, meus braços e mãos doíam, minhas pernas não queriam mais andar...
 
Depois de muitas paradas, completamente abatido, arriei o balde.
 
Estava brabo comigo mesmo...
 
-Como posso ser tão fraco? Como fui tolo em achar que poderia fazer isto? Como fui idiota em oferecer esta penitencia que nem valeu! Que nem pude cumprir!
 
E eu falava com o Céu!
 
-Perdoa Mãe... Sou assim! Eu não vou nem conseguir trazer o outro balde... Perdoa Mãe...
 
Agora eu molhava meu corpo com dolorosas lágrimas...
 
-Que estupido sou...
 
Ao levantar os olhos, em direção a pequena estrada, vi uma cena que jamais esquecerei, o Padre Silvio, 88 anos, velhinho, doente, arcadinho, trazia o meu balde!
 
-Calma coração! –Eu não tenho mais lágrimas...
 
-Bom dia, meu filho!
 
-Bom dia Padre, Sua benção.
 
-Você vinha trazendo o balde?
 
-Perdão Padre, eu não consegui...
 
-Você praticou um bem.
 
-Como Padre? Deixando o balde no meio do caminho?
 
-Você foi meu Anjo, eu havia feito o propósito de trazer um balde para cima, mas, não consegui move-lo, então subi assim mesmo, apenas rezando, e quando vi o balde no meio do caminho dei graças a Deus, um Anjo o trouxe até o meio! Agora falta pouco...
 
É obvio que eu não pude mais falar... Nada, a voz não me saia...
 
-Não chore meu filho, Deus sabe fazer as coisas...
 
-É, Ele sabe...
 
O Padre rezou um pouco e se despediu sorrindo!
 
Eu permaneci mais um pouco e me sentia arrasado, estupido, pequeno demais diante do que estava acontecendo!
 
Aos poucos fui recuperando as forças, ou a coragem, e pus-me a fazer a viagem de volta, e mesmo envergonhado diante de Deus, desci rezando o terço.
 
Já no pátio da Igreja, ao ver o Padre Silvio, acenei para ele, e o agradeci, e ele respondeu:
 
 -Muito obrigado meu filho, por ajudardes na construção da gruta...
 
-Obrigado, digo eu Padre, pelo Senhor ter levado o meu balde...
 
O Padre ficou surpreso, parecendo não entender o que eu dizia!
 
-Como filho? –Levar o seu balde?
 
-Sim, o balde que eu deixei pelo caminho no morro...
 
-Não foi eu não filho, como eu poderia? Acho que nem um balde vazio eu conseguiria...
 
Diante da minha perplexidade o Padre colocou as mãos em minha cabeça, me abençoou e disse:
 
 - Segue filho, o teu caminho, Deus precisa de ti e lembra-te sempre: Ele sempre te ajudará a levar teus fardos... Olhou para o Céu e sorriu!
 
E sei que o Arcanjo Miguel também sorriu, porque o Padre se despediu com a mão na testa em sinal de continência.
 
 
 
CLAUDIO HECKERT
 
 
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