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27/09/2017
A GRUTA
Uma gruta! Uma gruta bem bonita no meio do pomar. Uma gruta para Nossa Senhora!
 
 
 
Porto Belo, SC, 18 de Fevereiro de 2017
 
A Gruta
 
- Nossa casa é bonita...
- Filho, nossa casa não é bonita – disse a mãe, ao ler a redação feita pelo filho – nossa casa é feia, de madeira velha, cheia de cupim, chove dentro...
- Mas mãe, sempre devemos dizer que nossa casa é bonita!
- Por que?
- Não sei porque. Mas acho que é porque a senhora é bonita, o pai é bonito, meus irmãos são bonitos...
- Pensando bem...
- E mãe, vê como tudo em redor da casa é bonito: o jardim com todas as flores que a senhora plantou; o bananal, o pomar com tantas frutas que o pai plantou; a horta com couves, cenouras, melancias, batatas. E tem as galinhas, mãe, tem os porcos...
- É! Nossa casa é bonita! Acho que vais ganhar nota 100 no boletim.
- Mas mãe, falta alguma coisa.
- O que falta, filho?
- Uma gruta! Uma gruta bem bonita no meio do pomar. Uma gruta para Nossa Senhora!
- É verdade! Bem que Nossa Senhora merece! Mas quem vai fazer?
- O pai! Ele sabe fazer! Ele fez o forno...
O forno de assar pão tinha uma forma abobadada e se parecia realmente com uma gruta.
- Pede para o pai! Acho que ele vai fazer.
O pai chegava do serviço pelas 15 horas, cansado do trabalho, das pedaladas de bicicleta – levava uma hora para chegar em casa – almoçava, tirava uma “soneca”, deitado no assoalho da sala, durante uns 20 minutos. Depois ia para o quintal. Sempre pedia para as crianças fazerem uma limonada e enquanto servia, o rapaz pediu.
- Pai, faz uma gruta?
- Uma gruta? Para que?
- Para Nossa Senhora cuidar do nosso quintal, da nossa casa...
- Nossa Senhora já cuida de nós...
- Mas aí Ela vai ficar olhando tudo!
O pai ficou alguns instantes em silencio.
- Pai, a gente pode pegar tijolos lá na olaria velha do “Seu” Alois. Tem bastante pedaços lá, tijolos velhos...
- Tá! Então tu vais lá buscar!
- Eu vou! 
- Mas, tens que pedir ao “Seu” Alois.
- Ai doeu, pai! Falar com “Seu” Alois? Tenho medo até de chegar perto dele!
- Tu pediste a gruta, tens que ajudar!
O rapaz foi levando o velho e pesado carrinho de mão feito de madeira, por seu pai. Até a roda era de madeira!
A olaria ficava antes da casa do Sr. Alois e não custava nada pegar alguns restos de tijolos ali.
- Mas precisa pedir – o pai lhe tinha dito!
E foi procurar o dono, nos ranchos, na estrebaria. 
Se escondeu: Alois estava colocando trato no cocho dos animais, e depois saiu em direção à máquina de moer cana, que ficava bem perto de onde o rapaz estava, que então se escondeu de novo.
- Te peguei – disse Alois – segurando e abraçando o menino.
O susto mereceu um grande “berro”!
O homem riu às gargalhadas e aos poucos, foi acalmando o menino.
- Que vieste fazer? O que queres pedir ao “Seu” Alois?
- É que... É que o pai quer fazer uma gruta.
- E o teu pai quer tijolos!
- É, mas podem ser pedaços.
- Hum! Pedaços é só lá embaixo na olaria. Mas aqui tem alguns inteiros que acho que vai dar...
- Que bom! São bem novinhos. O Pai vai gostar muito. Obrigado, “Seu” Alois.
E o homem, que parecia mau, mostrou para aquele menino do quanto o seu coração era bom!
- Já tem bastante! Mas se precisar mais pode vir buscar.
Colocou o carrinho na estrada para facilitar ao menino, embora tivesse dúvida de que ele o poderia conduzir. 
Confiante, o rapaz pegou o carrinho e o levou, até porque, “de morro abaixo todo o santo ajuda”. Mas quando terminou a descida, começou a sentir o peso, e já estava quase sem forças quando o “Correca” veio ajudar: pegou quatro tijolos nos braços e acenou para outros colegas fazerem o mesmo.
Quando chegou em casa, o pai brincou com o filho:
- Por que esta canseira toda? O carrinho está vazio!
Os amigos, em uníssono, disseram ao pai do rapaz:
- Mas “Seu” Antônio, o carrinho que o senhor fez é mais pesado do que todos os tijolos juntos! 
- Obrigado, crianças! Vou fazer a gruta e a primeira oração será para vocês!
- Pro “Seu” Alois, pai,  pro “Seu” Alois, disse o menino.
- Pro “Seu” Alois!
  
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Fato mais ou menos semelhante aconteceria há 20 anos mais tarde:
Eu estava construindo a nossa primeira casinha num bairro bem distante de Blumenau, onde morávamos – Norma, Eu e nossas quatro crianças -  pouco conhecido e pouco habitado: um bairro novo.
Meu Pai Antônio me ajudava na construção e assim, nos finais de semana íamos de bicicleta para este trabalho. Num dia em que já voltávamos para casa comentei com meu pai:
- Pai, este lugar é tão bonito. Acho que Norma e Eu vamos ser felizes aqui.
- Certamente, filho. É um lugar bonito embora tão longe. Mas com o tempo poderá se tornar um grande bairro.
- Mas Pai, falta alguma coisa!
- O que?
- Uma Capela. Já pensou: Uma linda Capela para Nossa Senhora.
- Tu vais morar aqui! Podes fazer acontecer isso!
E de fato, assim que nos instalamos iniciamos novenas nas famílias, orações nas casas...
Mas não permanecemos muito tempo ali e deixamos a casa alugada e fomos morar em outra cidade.
Dez anos depois vendemos a casa para um grupo que desejava instalar uma Comunidade Católica!
Mais alguns anos adiante ao passarmos pelo bairro, ficamos maravilhados: Sobre o nosso antigo terreno, estava erigida a Igreja da  Imaculada Conceição!
Hoje, Paróquia Nossa Senhora Imaculada Conceição.
Bairro Bela Vista, na Divisa de Gaspar-Blumenau: um Bairro próspero, grande, lindo que nos deixa saudades.
Não falta mais nada ali. Amém!
Cláudio Heckert
 
 
 
 
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