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21/10/2018
Boca Negra - Histórinhas
“as mães sempre dão um jeito", mas não mostraria ao menino, o pesado carrinho de mão ainda sujo, e não mostraria os rastros no chão, deixados pelos pingos da água que escorriam da massa.
 
 
 

Boca Negra

20180928

 

- “Bênção”, mãe! “Tô” indo pra escola.

- Deus te abençoe, Beto! Boa sorte.

- O mãe, tá chegando a carroça da massa...

- Pode deixar, a mãe atende.

E o menino “voou” para a escola!

Neste dia, as horas não passavam: Seus pensamentos estavam na “massa”. Gostava de brincar na “massa”, e a hora não passava. Quando a sineta tocou o final da aula, saiu como que, voando porta afora, estrada afora... Sua casa ficava a três quilômetros e levaria 30 minutos para chegar, mas naquele dia, às 12,14 horas já estava em casa! Levou catorze minutos!

- Ah! Viestes cedo hoje? Quando tem massa...

- É, mãe! Eu vim correndo!

Almoçou rapidamente e foi brincar.

“Massa”: um produto da mandioca, na verdade, o resíduo da mandioca após ser triturada, moída e transformada em goma para uso na indústria têxtil. Este resíduo não tinha utilidade na indústria e então a “Tapioca” (nome dado a empresa que pertencia ao Grupo Renaux) doava aos pequenos agricultores, ou para as famílias que possuíam quintais, ou alguma criação de aves ou animais. Este produto servia então de alimento para os animais e de fertilizante para as plantas. Era colocada em um buraco cavado no chão, e na casa do Beto, media dois metros de comprimento, dois de largura e dois de fundura. Com a massa dentro, se parecia com uma piscina ou com uma “lagoa” como o menino costumava dizer, e ali brincava: se jogava, mergulhava, nadava, se sujava...

Seu cachorrinho, Boca Negra, brincava junto: feliz, pulando pra lá e pra cá, rabinho sempre balançando, “rindo”, “falando”...

- Pena que não pudemos brincar desde manha cedo por causa da escola. Agora a massa já está ficando dura.

De fato, a água existente na massa, aos poucos se evaporava deixando cada vez mais dura a massa e desta maneira não serviria mais para brincar, mas só para tratar os bichos.

Beto se lembrou de quando veio a carroça: - Mas, como é que “botaram” a massa aqui? A estrada é lá fora, cinquenta metros longe, o portão é muito estreito e não passa a carroça, e tem ainda o morrinho para subir... Perguntaria à sua mãe e esta lhe responderia que “as mães sempre dão um jeito", mas não mostraria ao menino, o pesado carrinho de mão ainda sujo, e não mostraria os rastros no chão, deixados pelos pingos da água que escorriam da massa.

Beto continuava brincando com seu cachorrinho, enquanto a massa ia se endurecendo e cada vez mais dificultando seus “nados” e seus passos, até que:

- Socorro! Estou entalado! Socorro, mãe, estou afundando!

Seus gritos não alcançavam a mãe, que estava “capinando” no outro lado do terreno.

- Socorro...

Boca Negra percebeu o perigo: corria de um lado a outro, latia, mas não sabia ou não podia salvar o amiguinho.

Correu então até a Dona Amélia e ali, gesticulava, latia, uivava, se jogava no chão, mostrava o caminho, e Dona Amélia ria das graças do cachorrinho brincalhão... Mas, mãe é mãe:

- Se o cachorrinho está aqui, onde está o Beto? Meu Deus!

E “disparou” quintal afora... 

Beto já quase não aparecia! Ele não tinha dois metros de altura.

Dona Amélia usou de toda a coragem e força e se jogou na massa, conseguindo agarrar seu filho e arrastá-lo pela mão, trazendo-o para fora do buraco.

- Graças a Deus! Deus é bom!

Boca Negra sorria feliz!

- Obrigada, bichinho: como és lindo! Como és querido!

Beto se restabeleceu rapidamente: sua mãe soube cuidar bem dele...

- A mãe sempre sabe cuidar bem!

Alguns dias depois, um caminhão atropelou o cãozinho!

- Assassino! Assassino, mãe, o caminhão assassino matou o Boca Negra!

- Não chore, Beto! É assim mesmo; de qualquer maneira os bichos morrem... “de um jeito ou de outro”... Vamos comprar outro cachorrinho e tudo ficará bem!

- Não tem outro, mãe! Não tem outro igual ao Boca Negra!

As mães sentem a dor dos filhos, não por causa do cachorro, mas por causa da dor dos filhos!

Beto soube, mais tarde, que seus irmãos levaram o corpo do cachorrinho lá no morro e o haviam jogado barranco abaixo, lá onde ia passar o trem. (O trem NUNCA passou por lá: a estrada de ferro nunca foi concluída, dado às intrincadas leis brasileiras...)

O menino quis ver o seu amiguinho e do alto, olhava lá embaixo e o que pode ver, foram alguns ossinhos...

- Os urubus comeram, disse-lhe a mãe.

E só ficaram as saudades...

No outro dia, a mãe surpreendeu o Beto atirando pedras em alguns urubus que estavam no pasto ao redor de sua casa:

- Beto! Não jogue pedras nos pássaros! Eles limpam o pasto!

- Eles comeram o Boca Negra...

- Não! Não foram estes: estes só estão ajudando a gente a manter o pasto limpo. Os que comeram o Boca Negra foram os que moram lá longe, no outro lado do morro... Muito longe, lá nos morros do “Seu Alois”...

O menino se acalmou! E mais ainda com o abraço caloroso daquela abençoada mãe.

- Deus te abençoe, filhinho! Você vai ficar bem!

- Obrigado, Mãe! A Senhora é tão linda!

“Amém!”

 

Cláudio Heckert

 

 

 

 

 

 

 
 
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