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Você está em: O Céu Fala / Catalina / Catalina IV



 
 
07/01/2008
Catalina IV
 
 
 

  A hora do adeus

 Nos primeiros minutos do dia 27, dia do Sagrado Coração de Jesus, por volta da

meia-noite e dez comecei a rezar e veio o seguinte diálogo. Jesus me disse:

- Ama-Me!

- Em quem quereis que Vos ame hoje, Senhor?

- Nos que te magoam.

- Então terei que amar a muitos.

- Não tantos quantos os que Me magoam e Eu os amo.

Senti uma grande doçura, pensei em todas as pessoas que tinham me ferido e

magoado. Senti somente amor, tinha todo o desejo de expressá-lo e dizer a todos

eles. Seguramente esse imenso amor é o Amor que Jesus sente por todos nós. Disse

ao Senhor:

- Queria ser a primeira pessoa a beijar hoje o Vosso Sagrado Coração.

- Deu meia-noite quando Meu Coração beijava o teu. Lembra durante este dia que

Eu te sustenho.

De manhã, durante minha oração, disse ao Senhor que se eu tivesse que escolher

um dia para que Ele levasse minha mãe, seria o dia do Sagrado Coração, ou

seja, nesse dia. Depois lhe disse algo assim: “se estivésseis em meu lugar, Vós

também escolheríeis esse dia para que Vossa Mãe fosse ao céu. Hoje eu a entrego

a Vós com todo meu amor”.

Às duas e quarenta e cinco da tarde, mais ou menos, minha mãe passou mal.

Arrebentou uma veia no seu esôfago e começou sua agonia. Diferentemente dos

dias anteriores, nesse dia ela amanheceu lúcida como para dizer tudo o que deveria.

Corremos para ajudá-la e ela nos tranqüilizava. Pediu que rezássemos o Terço

da Divina Misericórdia. Ela repetia as orações entre espasmos nos quais perdia

muito sangue, mas estava completamente consciente... E assim começou

a misturar-se a dor com a alegria, o medo com a confiança, a impotência com a

esperança e o amor... em um clima de oração recolhida e cantos.

Meu diretor espiritual tinha que celebrar a Santa Missa em uma paróquia, então

antes que saísse lhe pedi que ministrasse a ela mais uma vez a

Unção dos Enfermos. Ela comungava todos os dias, pois estava se preparando para

este momento importante. Pediu a bênção do sacerdote e lhe disse: “Padre, lembra-

te sempre de mim e não te esqueças de mim em tuas orações...”

A experiência que vivemos em casa será inesquecível para todos os que estávamos

com mamãe. Podíamos experimentar o amor de Deus vivo e presente em uma

mulher tão debilitada e frágil.

Durante a doença, minha mãe foi atendida por um médico para quem só tenho

palavras de gratidão, porque não apenas é um dos melhores especialistas que conhecemos,

como vive sua fé católica e oferece um valioso testemunho de vida no

exercício de sua profissão. Ele havia viajado para um Congresso, então chamamos

o seu substituto, mas este lamentavelmente não teve a mesma atitude, pelo que

tive que pedir ao Senhor a cada momento para que Ele nos guiasse.

Parece-me muito importante sugerir agora a todos que em circunstâncias difíceis

procurem um médico católico praticante, sensível ao sofrimento da família

que acompanha a um doente terminal. Os médicos devem compreender que os

pacientes são seres humanos e que não precisam somente de uma receita, mas

também de proximidade, de segurança, estima e confiança, o amor que uma profissão

desse tipo requer.

Compreendendo que tinha chegado o fim, pensei que deveríamos despedi-la de

acordo com os que vivem e morrem na graça de Deus. Voltamos a rezar, colocando

uma música de louvores como fundo. Ela podia escutar alguns Salmos, cantos

religiosos e o terço. Em meio ao seu sofrimento, parecia encantada com o que escutava.

Eu via a dor de meu irmão Eduardo e me doía muito mais porque é uma pessoa

muito sensível. Em determinado momento, pedi a minha mãe sua bênção e ela

abençoou a cada um de nós.

Em certo momento, por volta das seis e meia da tarde, ela disse que já tinha que

ir com “eles” e fazia menção de levantar-se. Respondi a ela que esperasse um pouco,

que se acalmasse. Ela me olhava com as pupilas dilatadas e me dizia “agora,

agora!...” No começo não compreendi, mas depois de duas ou três vezes que ela fez

assim, entendi que queria rezar a jaculatória do Terço da Misericórdia e dizia

“Deus Santo, minha Mãe, minha Mãe”. Então a convidávamos a repetir: “Deus

Santo, Deus Forte, Deus Imortal... tende piedade de nós”, “Jesus, Maria e José,

salvai almas e salvai a minha alma”, “Senhor, em Vossas Mãos entrego o meu espírito”,

e ela repetia várias vezes.

Dava a impressão de que sua alma queria sair do corpo, mas ela queria ir em

corpo e alma juntos, com um entusiasmo que verdadeiramente nos surpreendia.

Começou de novo a sangrar pelo nariz e pela boca. Nós a recostamos.

Em certo momento chamou a jovem que ajuda em casa, que havia cuidado dela

por cerca de quatro anos, e lhe disse: “Doris, cuida de minha filha, de meus filhos”.

Depois disse para mim “Agora serás a mãe de teus irmãos, como foi minha

mãe”... No fim, despedindo-se, dirigiu algumas palavras para cada um.

Tenho que ir, deixem-me ir!

Ela abria muito os olhos, como se procurando alguma coisa, e repetia: “Pai, meu

espírito...” e novamente: “já, já!”.

Compreendemos que queria dizer “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”, nós

a ajudamos e ela repetiu quatro vezes....

Depois disse: “não me detenham, tenho que ir, deixem-me ir”.

Tinha suas mãos muito frias entre as minhas, e lhe disse que fosse sem temores

para os braços de Jesus, que era um dia maravilhoso, do Sagrado Coração, que

todos nos despedíamos dela com alegria... Comecei a cantar “além do sol, tenho

um lugar...” Ela se uniu ao meu canto, depois comecei a cantar uma canção de

ninar e ela também me acompanhou. Enquanto isso, todos os demais permaneciam

em oração ao redor dela, rezando o Santo Rosário.

Depois de uns momentos ela disse: “Não posso ir! Primeiro tenho que ver a Virgem...”

 Demos para ela o quadro de Nossa Senhora Auxiliadora e eu lhe disse que

ali estava ela. Mas ela olhou em outra direção e retrucou: “Sim, já está aqui, qual

é seu nome?”... Minha cunhada Anita lhe perguntou: É Maria Auxiliadora? Disse

que não. Anita lhe perguntou se era Nossa Senhora de Guadalupe. Respondeu:

“Sim, é Ela, é esse Seu nome... Dêem lugar para a Mãezinha, dêem espaço... Deus

Santo...! Minha Mãe...! Meu Pai, em Tuas mãos...!” e, levantando sua mão, caiu

inconsciente, como para segurar a mão de alguém que não víamos. Durou menos

de um minuto nesse estado e expirou...

Tanto sofrimento, especialmente nos últimos meses, havia acabado com suas

forças. Creio que não podíamos esperar morte mais santa e mais serena.

Seu velório foi tão humilde quanto ela era. Não quisemos que a pusessem em

um caixão, nós a deitamos em sua cama, alugada de hospital. Isso me levou a meditar

mais uma vez o quão vão é o apego às coisas materiais, porque na hora que

se vai, em verdade não se tem nada.

Nós a vestimos com o vestido branco que uns dias antes ela havia pedido insistentemente

que aprontassem, e chegou o pessoal da funerária para preparar seu

corpo. Pedi somente um crucifixo com duas luzes internas e nada de cordões, nem

adornos que, de tão chamativos, destoam do luto e dos sentimentos da família.

Rodeava o seu corpo inerte somente a parte de minha família que vive nesta cidade,

e o grupo mais próximo de nosso Apostolado, uma amiga muito querida que

chegou do México para acompanhar meu irmão ao crematório, Analupe, e eu.

Em meio a toda essa dor, demos graças ao Senhor pelas pessoas a quem minha

mãe queria muito, como David Lago, que se encarregou de tudo como se fosse

mais um filho, o Dr. William Rosado, que, deixando de lado compromissos familiares,

liderou a parte dos trâmites médicos. Miguel, Cecilia, Pepe... E o resto do grupo,

cada um com sua cota de afeto e solidariedade.

O sacerdote que nos dirige celebrou a Missa de Corpo Presente no quarto, junto

à cama em que mamãe parecia adormecida.

Mas o Senhor maravilhoso, quis nos dar algo mais para ela, como um cartão de

condolências enviado pelo Céu: as irmãs Dominicanas, nossas tão queridas amigas,

apareceram em casa para cantar na Santa Missa. Verdadeiramente parecia

que estávamos em um lugar muito distante da dor e da terra; em certo momento

nos pareceu mesmo escutar coros de anjos.

Nós a velamos a noite toda, ela com o rostinho descoberto. Chegou a nos acompanhar

por umas horas um sacerdote a quem minha mãe especialmente apreciou

muito, e que generosamente ofereceu sua igreja para celebrar a Missa e depositar

suas cinzas.

Quanto amor das pessoas próximas a nós! Especialmente de uma jovem a quem

quero como se fosse minha filha, e que permaneceu junto a mim nas 24 horas seguintes:

Martha, que Deus te pague por tua companhia.

Houve lágrimas sim, mas não um pranto desesperado. Estivemos em oração por

toda a noite. No dia seguinte, à uma da tarde ela foi levada ao Crematório. Eu havia

telefonado a um Arcebispo para que me orientasse sobre essas coisas, pois em

meu país não se costuma tomar essa medida e sua resposta me deixou tranqüila

a respeito.

Quando mamãe deixava a casa, eu me dirigi ao Oratório para rezar o Santo Rosário

com meu diretor espiritual (bendito homem que o Senhor colocou para nos

fortalecer e salvar a minha mãezinha). Eu sabia que somente a oração poderia me

oferecer a paz esperada. Os membros do Apostolado acompanharam o corpo enquanto

cantavam à Virgem: “Oh vem conosco vem caminhar, Santa Maria, vem…”

Mais tarde, a Santa Missa foi celebrada em um clima de profundo gozo espiritual

e paz, no Santuário da Divina Misericórdia. Ali, na Cripta, descansam os restos

daquela mulher que confiou tanto na Misericórdia de Deus.


 
 
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