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26/07/2011
Anziani 3/5
Carta de João Paulo II aos anciãos
 
 
 
3. Um século complexo rumo a um futuro de esperança. Dirigindo-me aos anciãos, sei que estou a falar com pessoas e de pessoas que atravessaram um longo percurso (cf. Sab 4, 13). Falo aos meus coetâneos; posso, assim, procurar facilmente uma analogia na minha vida pessoal. A nossa vida, caros irmãos e irmãs, foi inscrita pela Providência neste século vinte, que recebeu uma complexa herança do passado e foi testemunha de eventos numerosos e extraordinários.
 Como muitos outros tempos da história, ele registrou luzes e sombras. Nem tudo foi escuridão. Muitos aspectos positivos compensaram o negativo ou dele surgiram como uma benéfica relação da consciência coletiva. Mas também é verdade — e seria tão injusto como perigoso esquecê-lo — que houve sofrimentos indizíveis, que afetará a vida de milhões e milhões de pessoas. Bastaria pensar nos conflitos deflagrados em diversos continentes devido a disputas territoriais entre Estados ou ao ódio interracial. De não menor gravidade devem-se considerar a extrema pobreza de amplas faixas sociais no hemisfério sul do mundo, o fenômeno vergonhoso da discriminação racial e a sistemática violação dos direitos humanos em muitas nações. E que dizer então dos grandes conflitos mundiais?
 Na primeira parte do século houve duas guerras, com uma quantidade nunca antes imaginada de mortos e de destruição. A primeira guerra mundial ceifou milhões de soldados e de civis, destroçando tantas vidas humanas no limiar da adolescência, e até mesmo da infância. E que dizer então da segunda guerra mundial? Ocorrida após poucos decênios de relativa paz mundial, especialmente na Europa, foi mais trágica do que a precedente, com consequências desastrosas para a vida das nações e dos continentes. Foi guerra total, inaudita mobilização de ódio, que caiu também brutalmente sobre populações civis inermes e destruiu inteiras gerações. O tributo pago, nas várias frentes, à loucura bélica foi incalculável, e igualmente terrível foi à matança consumada nos campos de extermínio, verdadeiros Gólgotas da época contemporânea.
 Na segunda metade do século, viveu-se por vários anos, o pesadelo da guerra fria, isto é da confrontação entre os dois grandes blocos ideológicos opostos, Leste e Oeste, com uma desenfreada corrida aos armamentos e a constante ameaça de uma guerra atômica, capaz de levar a humanidade à extinção. Graças a Deus, aquela página tenebrosa fechou-se na Europa.
Com a queda dos regimes totalitários opressivos, como fruto de uma luta pacífica, que se serviu das armas da verdade e da justiça. Começou, assim, um árduo ,mas profícuo processo de diálogo e de reconciliação, destinado a instaurar uma convivência mais serena e solidária entre os povos.
4.Muitas nações, porém, estão ainda bem longe de conhecer os benefícios da paz e da liberdade. Grande inquietação suscitou nos passados meses o violento conflito deflagrado na região dos Balcãs, já teatro nos anos precedentes de uma terrível guerra de caráter étnico: mais sangue foi derramado, outras destruições aconteceram, mais ódio foi alimentado. Agora, no momento em que o furor das armas se aplacou, começa-se a pensar na reconstrução, na perspectiva do novo milênio. Nesse meio tempo, continuam a rebentar também em outros continentes vários focos de guerra, por vezes com massacres e violências muito cedo esquecidos pelos jornais.
 Se estas lembranças e dolorosas realidades atuais nos entristecem, não podemos esquecer que o nosso século viu levantar-se no horizonte bastantes sinais positivos, que constituem novas fontes de esperança para o terceiro milênio. Assim, cresceu — mesmo entre tantas contradições, especialmente quanto ao respeito pela vida de cada ser humano — a consciência dos direitos humanos universais, proclamados em solenes declarações que comprometem os povos.
 Desenvolveu-se, igualmente, o sentido do direito dos povos à auto-determinação no âmbito de relações nacionais e internacionais inspiradas na valorização das identidades culturais e no respeito pelas minorias. A queda dos sistemas totalitários, como os do Leste europeu, fez crescer a percepção universal do valor da democracia e da liberdade de mercado, mesmo deixando aberto o enorme desafio de conjugar liberdade e justiça social.
 Deve ser considerado, da mesma forma, um grande dom de Deus o fato de as religiões estarem a tentar, sempre com maior determinação, um diálogo que as torne elemento fundamental de paz e de unidade no mundo.
Como não ressaltar também o crescimento, na consciência comum, do reconhecimento da dignidade da mulher? Sem dúvida, há ainda muito caminho a ser percorrido, mas a linha está traçada. Motivo de esperança é, também, a intensificação das comunicações que, favorecidas pela atual tecnologia, permitem superar as fronteiras tradicionais, fazendo-nos sentir cidadãos do mundo.
Outro campo importante de maturação é a nova sensibilidade ecológica que merece ser encorajada. Fatores de esperança são ainda os grandes progressos da medicina e das ciências aplicadas ao bem-estar do homem.
 Portanto, são muitos os motivos pelos quais devemos agradecer a Deus. Apesar de tudo, este final de século apresenta-se com grandes potencialidades de paz e de progresso. Mesmo das provas que afetaram a nossa geração, emerge uma luz capaz de iluminar os anos da nossa velhice. Fica então confirmado um princípio muito apreciado pela fé cristã: « As tribulações não só não destroem a esperança, mas são o seu fundamento ».
Então é sugestivo que, enquanto o século e o milênio se encaminham para o crepúsculo e já se entrevê a aurora de uma nova estação para a humanidade, nos detenhamos a meditar sobre a realidade do tempo que passa rápido, não para resignar-nos a um destino inexorável, mas para valorizar plenamente os anos que nos restam para viver.
O outono da vida
 5.O que é a velhice? Às vezes fala-se dela como do outono da vida — assim fazia Cícero (9) — seguindo a analogia sugerida pelas estações e pelo andamento das fases da natureza. Basta olhar, ao longo do ano, para a mudança da paisagem nas montanhas e nas planícies, nos prados, nos vales, nos bosques, nas árvores e nas plantas. Há uma estreita semelhança entre o biorritmo do homem e os ciclos da natureza, à qual ele pertence.
 
Porém, o homem, por sua vez, distingue-se de toda a realidade que o circunda, porque é pessoa. Plasmado à imagem e semelhança de Deus, ele é sujeito consciente e responsável. Mas, mesmo na sua dimensão espiritual, ele vive a sucessão das distintas fases, todas igualmente passageiras. S. Efrém, o Sírio, amava comparar a vida com os dedos da mão, quer para pôr em evidência que a sua duração não vai mais além de um palmo, quer para indicar que, como os vários dedos, cada fase da vida tem a sua característica, e « os dedos representam os cinco degraus pelos quais o homem progride ».(10) Se, portanto, a infância e a juventude são o período onde o ser humano está a formar-se, vive projetado para o futuro e, tomando consciência das próprias potencialidades, forja Project os para a idade adulta, a velhice também possui os seus bens, porque — como observa S. Jerônimo — atenuando o ímpeto das paixões, ela « aumenta a sabedoria, dá conselhos mais amadurecidos ».(11) Em certo sentido, é a época privilegiada daquela sabedoria que, em geral, é fruto da experiência, porque « o tempo é um grande mestre ».(12) Além disso, é bem conhecida a oração do Salmista: « Ensinai-nos a contar os nossos dias, para que guiemos o coração na sabedoria » (Sal 90 [89], 12).
 
 
 
 
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