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02/02/2010
Catechesi Tradendae - Capítulo V (35/39)
 
 
 

35. O tema designado pelo meu Predecessor Paulo VI para a IV Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos era o seguinte: «A catequese, no mundo contemporâneo, com particular referência às crianças e aos jovens». A subida de influência dos jovens é sem dúvida o fato mais rico de esperanças e também de inquietudes para boa parte do mundo de hoje. Alguns países, especialmente os do Terceiro Mundo, têm mais de metade da preocupação com idade inferior aos vinte e cinco ou trinta anos. Isso equivale a dizer que há milhões e milhões de crianças e de jovens que estão a preparar-se para o seu futuro de adultos. E nisto não conta somente o fator numérico: acontecimentos recentes e noticiários da crônica quotidiana dizem-nos que esta multidão inumerável de jovens, embora possa ser aqui e acolá dominada pela incerteza e pelo medo, ou seduzida pela evasão através da indiferença e da droga, ou mesmo tentada pelo niilismo e pela violência — na sua maior parte representa, não obstante, a grande força que, por entre muitos riscos, se propõe construir a civilização do futuro.

Por isso, com solicitude pastoral, temos de pôr-nos a pergunta: como apresentar a tantos jovens e crianças Jesus Cristo, Deus feito homem? E apresentar-lh'O não simplesmente num momento de exaltação dum primeiro encontro fugidio, mas mediante um conhecimento cada vez mais aprofundado e luminoso da sua Pessoa, da sua mensagem, do desígnio de Deus que Ele quis revelar, do chamamento que Ele dirige a cada um, do Reino que Ele quer inaugurar neste mundo com o «pequeno rebanho»  daqueles que acreditam n'Ele, o qual não ficará completo senão na eternidade. Sim, como se há de dar a conhecer o sentido, o alcance, as exigências fundamentais, a lei de amor, as promessas e as esperanças deste Reino?

Muitas observações haveria a fazer aqui, quanto às características que tem de assumir a catequese nos diversos períodos da vida.

Na primeira infância

36. Momento muitas vezes decisivo é aquele em que as criancinhas recebem dos pais e do meio ambiente familiar os primeiros elementos da catequese. Não serão talvez mais do que uma simples revelação do Pai celeste, bom e providente, para o qual as criancinhas hão de aprender logo a voltar o coração. Brevíssimas orações, que elas hão de aprender a balbuciar, constituirão o início de um diálogo amoroso com esse Deus escondido cuja Palavra vão começar em breve a ouvir. Nunca é demais insistir com os pais cristãos para que façam essa iniciação precoce das crianças. É por ela que as sua faculdades hão de ser integradas numa revelação vital com Deus. Tarefa fundamental, exige grande amor e profundo respeito para com as crianças, as quais, têm direito a uma apresentação simples e verdadeira da fé cristã.

Crianças

37. Em seguida, passado pouco tempo, na escola e na igreja, na paróquia ou no âmbito da assistência religiosa do colégio católico ou das escolas do Estado, simultaneamente com a abertura a um círculo social mais vasto, chega o momento de uma catequese destinada a introduzir as crianças de modo orgânico na vida da Igreja, e a prepará-las para a celebração dos Sacramentos. Catequese didática, sem dúvida, mas visando um testemunho de fé que há de ser dado; catequese inicial, sim, mas não fragmentária, pois deverá apresentar, embora de maneira elementar, todos os mistérios principais da fé e sua incidência na vida moral e religiosa das crianças; catequese, enfim, que há de dar sentido aos Sacramentos, mas ao mesmo tempo receber desses Sacramentos vividos uma dimensão vital, que a impeça de permanecer simplesmente doutrinal e comunique às crianças a alegria de serem testemunhas de Cristo no meio em que vivem.

Adolescentes

38. Depois chega a fase da puberdade e da adolescência, com o que esta idade representa de grande e de arriscado. É o tempo da descoberta de si mesmo e do próprio mundo interior; o tempo dos planos generosos; o tempo do desabrochar do sentimento do amor, com os impulsos biológicos da sexualidade; o tempo do desejo de estar junto com os outros; o tempo de uma alegria particularmente intensa, ligada à inebriante descoberta da vida. Muitas vezes, porém, é simultaneamente a idade das interrogações mais profundas; das indagações angustiadas ou mesmo frustrantes; de certa desconfiança em relação aos outros, acompanhada do debruçar-se sobre si mesmo fechando-se; é a idade, por vezes, dos primeiros fracassos e das primeiras amarguras. Ora a catequese não pode ignorar tais aspectos facilmente variáveis deste delicado período da vida. Uma catequese capaz de levar o adolescente a uma revisão da sua própria vida e ao diálogo, uma catequese que não ignore os seus grandes problemas — o dom de si, a crença, o amor e sua mediação que é a sexualidade — poderá ser decisiva. A apresentação de Jesus Cristo como amigo, como guia, como modelo ideal capaz de provocar admiração e arrastar à imitação; depois, a apresentação da sua mensagem de molde a poder dar resposta aos problemas fundamentais; finalmente, a apresentação do desígnio de amor de Cristo Salvador, como encarnação do único amor verdadeiro com possibilidade de unir entre si os homens: tudo isto poderá proporcionar a base para uma autêntica educação na fé. Mas hão de ser sobretudo os mistérios da Paixão e Morte de Jesus, aos quais São Paulo atribui o mérito da sua gloriosa Ressurreição, que mais poderão dizer à consciência e ao coração dos adolescentes e projetar luz sobre os seus primeiros sofrimentos e sobre os do mundo que eles estão a descobrir.

Jovens

39. Com a idade da juventude chega o momento das primeiras grandes decisões. Apoiados, porventura pelos membros da família e por amigos, contudo entregues a si mesmos e à sua consciência moral, são os jovens que passam a ter de assumir por si próprios a responsabilidade do seu destino, de modo cada vez mais frequente e determinante. O bem e o mal, a graça e o pecado, a vida e a morte afrontar-se-ão no mais íntimo deles mesmos. Como categorias morais, certamente, mas, sobretudo como opções fundamentais que eles têm de assumir ou rejeitar, com lucidez, conscientes da própria responsabilidade. É evidente que nesta fase uma catequese que denuncie o egoísmo apelando para a generosidade, que apresente, sem simplismos nem esquematismos ilusórios, o sentido cristão do trabalho, do bem comum, da justiça e da caridade, uma catequese da paz entre as nações e da promoção da dignidade humana, do desenvolvimento e da libertação, tais como estas coisas são apresentadas nos documentos recentes da Igreja , terá de completar de maneira feliz no espírito dos jovens uma boa catequese das realidades propriamente religiosas, a qual nunca deve ser descurada. A catequese assume então uma importância considerável. É o momento em que o Evangelho poderá ser apresentado, compreendido e acolhido como algo capaz de dar sentido à vida, e por isso de inspirar atitudes de outra forma inexplicáveis, como por exemplo: a renúncia, o desapego, a mansidão, a justiça, a fidelidade aos compromissos, a reconciliação, o sentido do Absoluto e do invisível, etc., outros tantos traços que hão de permitir identificar determinado jovem entre os seus companheiros como discípulo de Cristo.

A catequese há de preparar deste modo os grandes compromissos cristãos da vida adulta. No que diz respeito, por exemplo, às vocações para a vida sacerdotal e religiosa, há a certeza de que muitas delas nasceram no decurso de uma catequese bem feita durante a infância e durante a adolescência.

Desde a primeira infância até ao limiar da maturidade, a catequese torna-se pois uma escola permanente de fé e segue as grandes linhas da vida, à maneira de um farol que ilumina o caminho da criança, do adolescente e do jovem.

 

 
 
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